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sexta-feira, 14 de março de 2014

Resumo do texto “O Sentido os Sintomas”, Freud – 1916

Texto O sentido dos sintomas – Sigmund Freud
Freud inicia o texto contrapondo a abordagem psiquiátrica e psicanalítica quanto ao modo de olhar o sintoma. A partir das experiências de observação da histeria feitas por Janet e Breuer, o autor aponta que para a psicanálise tanto os sintomas quanto as parapraxias e os sonhos têm um sentido que se relaciona com as experiências de cada sujeito. Nesse texto, Freud se atem a exemplos da neurose obsessiva, pois, para ele, ao contrário do que acontece na neurose histérica, os sintomas revelam de modo mais explícito o quão particular são, além de apresentarem poucos ou nenhum fenômeno somático, permanecendo circunscritos ao âmbito mental.
Freud define que a manifestação da neurose obsessiva se revela quando o paciente se ocupa de pensamentos que não lhe interessam ou importam – ou seja, pensamentos cuja significação é nula –, mas que, no entanto, permanecem ativos na vida do mesmo, que se obriga constantemente a remoê-los como se fossem de grande importância. Ele também revela que os atos obsessivos são sempre precauções ou fuga de impulsos graves, como, por exemplo, o cometimento de crimes. Além disso, também a dúvida, que se apresenta acompanhada de extrema indecisão e restrição de liberdade, é um sintoma presente na neurose obsessiva. Cabe ao analista tentar compreendê-los e interpretá-los.
A seguir, Freud ilustra sua explicação sobre a neurose obsessiva com dois exemplos. O primeiro se trata do caso de uma senhora que possuía um ritual de correr de um quatro ao outro e, ao chegar ao novo aposento, e ficar próxima a uma mesa enquanto chamava a empregada para lhe mostrar uma mancha vermelha na toalha.
Neste exemplo, o sentido do ato obsessivo da senhora foi parcialmente descoberto pela mesma ao identificar semelhanças do ritual com sua noite de núpcias, na qual seu marido havia ficado impotente. Freud interpreta então, que o ato obsessivo da mulher era uma tentativa de proteger seu marido de comentários maldosos além de desculpá-lo e engrandecê-lo, podendo ter uma vida tranquila e evitando tentações fora do casamento.
O segundo exemplo trata-se da necessidade de absoluto silêncio exigido por uma jovem ao deitar-se para dormir, o que se transformava em um verdadeiro ritual. Ela exigia que a porta de seu quarto e a dos pais permanecesse entreaberta, além de possuir especificações com a sua cama e travesseiros. A partir das associações feitas pela paciente em diversas oportunidades, Freud interpreta seus atos, relacionando-os com questões da vida sexual da jovem que envolvia uma forte tensão entre os pais e a moça.
Freud ressalta que os sintomas, assim como os sonhos, têm um sentido que se relaciona com as experiências do paciente, e que, desvenda-lo, não é uma tarefa simples, pois exige um longo processo de investigação sobre a história de cada sujeito.

Elaborado pela equipe da Monitoria de Psicanalise – Curso de Psicologia – FACHS – PUC/SP – abril/2015

segunda-feira, 10 de março de 2014

Psicanálise e Psiquiatria (S. Freud, Conf. XVI, Vol. XVI, 1916-17)

Neste texto, Freud afirma que irá apresentar à plateia algumas conclusões psicanalíticas acerca da neurose, que (diferentemente dos sonhos e das parapraxias) é um campo pouco familiar à maior parte das pessoas.

Logo no início do texto, Freud coloca a psicanálise como uma ciência empírica, capaz de realizar “acuradas observações a partir da fala dos neuróticos”. Segundo ele, um conceito psicanalítico não é especulativo—pelo contrário, é expressão direta de “observações ou do trabalho exaustivo das mesmas”. Também declara que há mudanças no pensamento psicanalítico, sempre que o progresso dessa ciência lhe permite novas conclusões, e que essas mudanças são sempre comunicadas, explicitadas.

Freud parte, então, para uma apresentação da visão psicanalítica acerca das neuroses. Utiliza-se de um exemplo clínico de ação sintomática, a fim de mostrar que, em seu entendimento, esta possui um motivo, um sentido, e uma intenção (ainda que isso seja muitas vezes oculto a quem emite esta ação).

A ação sintomática, que descreve a fim de elucidar essas afirmações, consiste em um paciente não fechar completamente a porta entre seu consultório e a sala de recepção vazia. Segundo Freud, isso decorre do desapontamento sentido pelo paciente ao encontrar a sala vazia e mobilhada de maneira simples, o que não corresponde às expectativas e esperanças que o paciente deposita no tratamento psicanalítico. Não fechar a porta teria o mesmo sentido de se afirmar “não chegará ninguém” (neste consultório pouco movimentado). Para Freud, essa ação se situa em um contexto psicológico específico do paciente e lhe é inconsciente.

A seguir, Freud relata o caso de uma paciente que possuía um sintoma de ciúmes aparentemente injustificado. No dia seguinte após comentar com sua empregada que descobrir uma traição do marido lhe seria um evento extremamente desagradável, esta senhora recebe uma carta anônima acusando seu marido desta exata conduta adúltera. Apesar de perceber que muito provavelmente a carta faz parte de uma armação planejada por sua empregada, a paciente desenvolve um delírio de ciúmes, desconfia do marido, briga com ele e sente um desconforto psicológico agudo. Em poucas sessões de análise, Freud percebe como seu sintoma refletia, na verdade, os desejos adúlteros desta própria senhora, que estava encantada por um rapaz mais jovem, casado com uma de suas filhas. “Se ao menos não somente ela, a senhora idosa, estivesse apaixonada por um homem jovem, mas também seu idoso marido estivesse mantendo um caso amoroso [...] então sua consciência se aliviaria [...]”. Esse processo, contudo, lhe é latente, involuntário.

Freud mostra, assim, que o delírio dessa paciente não é absurdo, mas possui motivação e sentido, além de ser “necessário como reação a um processo mental inconsciente”. Segundo ele, o sintoma “ajustou-se ao contexto de uma experiência emocional da paciente”.

Em seguida, Freud afirma que, para a psiquiatria, as ações sintomáticas se dão casualmente, e os sintomas seriam resultado de predisposições familiares. Ao se deparar com o sintoma, o psiquiatra procura identificar o aspecto essencial do mesmo (no caso clínico relatado, o delírio de ciúmes), mas não se aproxima de seu conteúdo. Afirmaria que certo tipo de sintomas é mais comum em pessoas cuja família apresenta histórico de sintomas semelhantes (hereditariedade). Os psiquiatras buscam, então, provir um diagnóstico e um prognóstico para o paciente.

Freud não descarta a importância da psiquiatria, mas questiona se o fator hereditário deveria contradizer a importância da experiência. Para ele, psiquiatria e psicanálise podem se suplementar. E apenas já não o fazem, não por causa de uma oposição da psiquiatria, mas dos psiquiatras.

A partir do caso relatado, conclui-se que o delírio tinha, de fato, um sentido. Ele era necessário como reação a um processo mental inconsciente (ele era uma espécie de consolação). E o fato do delírio ter se apresentado como delírio de ciúme, em vez de qualquer outro tipo, indica a determinação da experiência que existe por trás da doença. Apesar da compreensão profunda do mecanismo dos sintomas, Freud afirma que a psicanálise, naquele momento, não seria capaz de influenciar os delírios. A psicanálise, assim como qualquer outra forma de terapia, encontra-se impotente nesses casos. Isso, porém, não rejeita a importância da análise e da pesquisa nesses casos, mesmo considerando que não haverá qualquer efeito benéfico imediato.




Elaborado por Eduardo Zaidan e Mario Otero Filho,
da equipe de monitores de Psicanálise da PUC-SP.


terça-feira, 1 de maio de 2012

"Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise" (S. Freud, in Obras Completas, VOL XII, 1912)

"Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise" (S. Freud, in Obras Completas, VOL XII, 1912)

No texto em tela, Freud tece recomendações acerca do método psicanalítico direcionadas à manutenção da escuta psicanalítica, da atenção flutuante.  
a.     Freud aponta a necessidade, por parte do analista, de recordar os relatos pronunciados por cada paciente. Ele esclarece que, com a técnica da atenção flutuante, o analista não precisa tomar notas durante a sessão. “(…) escutar e não se preocupar em anotar alguma coisa”. Em outras palavras, tratar-se-ia de uma contrapartida à associação livre feita pelo analisando, na medida em que o analista, ao não tentar compreender e lembrar, estaria lançando mão da sua “memória inconsciente”.
b.       No mesmo sentido, há a recomendação de não tomar notas no decorrer da sessão. A ação de tomar notas seria uma forma de seleção sobre aquilo que é trazido pelo paciente, isto é, seria uma forma de fixar mais ou menos atenção sobre esse ou aquele elemento da associação livre, o que se oporia à ideia da escuta despreocupada quanto à lembrança ou não de alguma associação trazida pelo paciente.
c.      Também quanto à possibilidade de tomar notas, ainda que para fins científicos, Freud descarta a possibilidade de fazê-las durante a sessão sem que isso prejudicasse a atenção flutuante. Assim, essas anotações poderiam ser feitas após a sessão. Falando novamente sobre a construção científica em cima de um caso, Freud aconselha que estes sejam trabalhados cientificamente apenas após o seu encerramento, visto que “(…) são mais bem sucedidos os casos em que agimos sem propósito, surpreendendo-nos a cada virada, e que abordamos sempre de modo desapercebido e sem pressupostos (…) não  especular e nem cogitar enquanto analisa”.     Freud empreende, então, uma analogia entre o trabalho do terapeuta e o trabalho de um cirurgião. O cirurgião, assim como o analista, deve deixar todos os seus afetos de lado de forma que esteja em jogo, no momento da cirurgia, apenas a operação, que deve ser realizada da melhor forma possível. Assim, a “ambição terapêutica”, a ambição de curar, seria o mais perigoso sentimento para o psicanalista. Destarte, o analista não deve se ater às expectativas, ao reconhecimento, ao retraimento perante as críticas. Esses afetos apenas trabalhariam em desfavor do paciente, assim como em uma cirurgia.
f.       Nesse item, Freud novamente pontua a atenção flutuante do analista como contrapartida à regra fundamental da psicanálise: a associação livre. Aqui é feita a analogia com a comunicação via telefone: as ondas sonoras emitidas são transformadas pelo aparelho em oscilações elétricas, que são novamente revertidas em ondas sonoras pelo receptor. O analista, assim como o receptor, posiciona o inconsciente (ondas sonoras) a partir da associação livre (oscilações elétricas). “(…) ele [o analista] deve voltar o seu inconsciente, como órgão receptor, para o inconsciente do emissor do doente, colocar-se ante o analisando como o receptor em relação ao microfone.” Todavia, Freud ressalta que o analista, para tanto, não pode ter em si resistências que o impeçam de entrar em contato com aquilo que fora percebido por seu inconsciente. As resistências do analista se caracterizariam, pois, como uma outra forma de seleção e distorção do material do paciente. Como solução para esse problema é prescrita a necessidade de que o analista se submeta também a uma análise (a não ser que se trate daqueles que conseguem analisar seus próprios sonhos, isto é, realizar a autoanálise). O risco da dispensa da autoanálise ou da análise por parte do analista residiria na possibilidade de uma projeção na ciência das peculiaridades de sua pessoa, o que poderia enviesar a sua percepção e interpretação.
g.       Outra ressalva colocada diz respeito à transferência. O analista não deveria trocar confidências e relatar sobre a sua vida, suas intimidades e seus conflitos mentais com o paciente. Freud reconhece que esse comportamento poderia ser eficaz para que o paciente contasse aquilo que ele próprio já sabe (aquilo que é da ordem da consciência), mas dificultaria o desvelamento do que resta inconsciente. Essa técnica de compartilhamento afetiva apenas faria com que o paciente tivesse ainda mais problemas na superação das suas resistências e poderia fazer com que o paciente tentasse inverter a relação analista-paciente, creditando mais interesse à vida do analista que a sua própria. “O médico deve ser opaco para o analisando, e, tal como um espelho, não mostrar senão o que lhe é mostrado”.
h.     Tão pouco o médico deveria repousar sobre o paciente ambições pedagógicas, assim como não deveria operar com a ambição terapêutica, pois deve respeitar as limitações do doente, colocando as capacidades do mesmo sempre a frente do seu próprio desejo.
i.         Por fim, é feita a ressalva acerca de uma colaboração intelectual do paciente. Freud aponta que a leitura de textos sobre a psicanálise não deveria ser proposta pelo analista, na medida em que o próprio analisando precisaria traçar seu próprio caminho na análise, sem recorrer em demasia à teorização. A eficácia da análise seria advento do respeito à regra psicanalítica e não do conhecimento teórico sobre a psicanálise.

É válido reiterar que Freud solidifica no texto em questão a atenção flutuante e a associação livre como pilares da prática psicanalítica e as recomendações traçadas convergem para a operacionalização das mesmas.  

Escrito por Camila Gerassi e Claudia O’Keeffe 

Revisado por Equipe de Monitores de Psicanálise da PUC/SP.


terça-feira, 24 de abril de 2012

" A Transferência" (S. Freud, Conf XXVII, Vol XI)


          No início do texto Freud discorre sobre os fatores determinantes do adoecer e os fatores que entram em jogo após o paciente ter adoecido e propõe a seguinte pergunta: “Dados esses fatores, onde residiria o papel transformador da análise?” Freud pontua, em primeiro lugar, a disposição hereditária, a qual já é estabelecida e por isso não pode ser modificado, impondo limites ao terapeuta. Em segundo as experiências da primeira infância do paciente que são de extrema importância à análise, mas por pertencerem ao passado, também não podem ser modificadas ou anuladas. E por ultimo a “frustração real” que diz respeito ao momento presente do paciente, todos as “infelicidades” decorrentes da vida, onde as experiências fogem a expectativa do sujeito.

Freud menciona que há uma ideia errônea sobre a terapia psicanalítica, que a toma por um tratamento que procura deixar o paciente sadio e vivendo uma vida sexual completa a partir do desprezo das barreiras éticas impostas pela sociedade. Algo que na verdade não é papel do tratamento, pois no conflito entre a libido e a repressão sexual nenhum dos dois deve prevalecer sobre o outro. Uma exceção é o caso do neurótico, “onde a tendência sexual suprimida acaba por encontrar uma vida através dos sintomas apresentados”. Por outro lado, se houver uma ascensão da sexualidade não haverá repressão sexual ou sintoma e assim pode-se observar que nenhuma das alternativas elimina o conflito interno. O analista não deve se tornar conselheiro ou orientador da vida de seu paciente e sim ajuda-lo a desvendar suas determinações inconscientes e leva-lo a tomar suas próprias decisões. O terapeuta não é reformador, mas um observador crítico e cabe ao paciente optar entre uma vida livre e uma vida de absoluto ascetismo. Assim, o que a terapia visa é a substituição do que está inconsciente pelo que é consciente; “suspendemos as repressões, removemos as precondições para a formação de conflito, transformamos o conflito patogênico em conflito normal”, a fim de encontrar uma solução. Freud introduz o conceito da terapia causal, que consiste em remover as causas dos sintomas e não o sintoma propriamente dito. A terapia psicanalítica propõe que a tarefa principal não é remover os sintomas e por isso não pode ser considerada uma terapia causal. “O que, pois, devemos fazer a fim de substituir o que é inconsciente, em nossos pacientes, por aquilo que é consciente?”. Primeiro acreditou-se que o analista deveria descobrir o material inconsciente e comunica-lo ao paciente, o que mostrou-se ineficaz, já que o paciente não compreende o conteúdo da mesma forma que o analista. Posteriormente, observou-se que se deve encontrar na memória do paciente o lugar onde o material se tornou inconsciente, através da remoção da repressão. Isto é feito a partir da busca da repressão, removendo a resistência que a mantém. Esta é provocada por uma anticatexia e é um mecanismo de defesa do ego. A partir desse processo consegue-se reviver o conflito antigo e assim revisar o processo de repressão, conduzindo-o a um melhor resultado, por conta de uma fortificação do ego.
            Durante esse tratamento, surge no paciente um interesse especial pela pessoa do médico, tornando-o mais importante do que seus próprios assuntos. Nesse momento, a análise faz progressos, já que o paciente se deixa absorver pelas tarefas que o tratamento lhe propõe. Porém, as dificuldades também podem aparecer (as resistências) e o paciente se mostra desinteressado no tratamento, fator que deve ser reconhecido como um fenômeno ligado a natureza da doença, e não apenas uma perturbação. Isso ocorre, pois o paciente transfere para o médico intensos sentimentos de afeição, incluindo uma supervalorização da pessoa-médico, uma absorção de seus interesses, ciúmes, etc. Esse fenômeno é nomeado como transferência, o paciente transfere sentimentos ao analista, que não podem ser justificados pelo tratamento, já que estes sentimentos já estavam preparados no paciente que se tornam evidentes na analise.
            A transferência é o principal motor da análise, ela é o terreno em que se dá o tratamento psicanalítico, é no campo da transferência, na sua instalação, nas suas diferentes formas, na sua interpretação e na sua resolução que ocorre o tratamento feito pela psicanálise¹. A transferência pode ser tanto positiva (sentimentos afetuosos, de admiração, etc.) quanto negativa (sentimentos hostis, de raiva). Entretanto quando se transforma em resistência, necessita de especial atenção, pois modifica a relação do paciente com o tratamento e assinala a proximidade do conflito inconsciente. Isto ocorre quando se expressa na forma de inclinação amorosa, pois a necessidade sexual provoca uma oposição interna, ou se consiste em impulsos não afetuosos (o que é mais comum no caso de pacientes homens).
            Frente a isso, o terapeuta deve mostrar ao paciente que esses sentimentos não são originados no tratamento, e não se aplicam ao médico, mas que são uma repetição de algo que lhe aconteceu anteriormente. Desse modo, a transferência que parecia constituir uma ameaça ao tratamento, torna-se seu principal aliado.
            O mecanismo da transferência só se manifesta na histeria, histeria de angustia, e neurose obsessiva, denominadas como neuroses de transferência. A tendência de transferência dos neuróticos é um aumento da capacidade de dirigir catexias libidinais das pessoas normais. Aqueles que possuem neuroses narcísicas não tem capacidade para a transferência, ou apenas possuem traços insuficientes da mesma. Suas catexias objetais devem ter sido abandonadas, e sua libido objetal, deve ter se transformado em libido do ego, e são inacessíveis aos esforços do analista.
¹   "Vocabulário da Psicanálise. Laplanche e Pontalis", 1982, editora Martins Fontes


   Elaborado pela equipe de monitores de psicanálise da PUC-SP

"A questão de uma Weltanschauung" (S. Freud, Conf. XXXV, Vol 22)

"A questão de uma Weltanschauung" (S. Freud, Conf. XXXV, Vol 22) ou”35. Acerca de Uma Visão de Mundo [Tradução. Volume 18. Companhia das Letras.]”

Weltanschauung [ou visão de mundo], para Freud, seria uma construção intelectual que busca solucionar todos os problemas de nossa existência de maneira uniforme e sem deixar lacunas. Na tentativa de separar o que é conhecimento do que é ilusão, Freud opõe a Weltanschauung científica a três outras, a arte, a filosofia e a religião. A arte para ele não pretenderia ser mais do que uma ilusão, logo, não representa ameaça à ciência. A filosofia, por sua vez, não se opõe à ciência, pois apesar de também se utilizar de métodos científicos, essa se perde ao almejar ilusoriamente uma verdade que dê conta de abarcar uma visão total de mundo. Já a visão de mundo pautada na religião, para Freud, é a única cuja força realmente representa uma ameaça para a ciência. Esse poder se dá pelo fato dela dar conta de três funções na vida do homem. A primeira é saciar o que o pai da psicanálise chama de sede de conhecimento, uma vez que a cosmogonia religiosa explica e dá sentido a todo o universo. A segunda é dar garantia de proteção e uma promessa de felicidade, reconfortando o homem diante da imprevisibilidade dos perigos da vida. A terceira função é normativa, tendo em vista que a religião, com sua ética, prescreve quais são as condutas moralmente corretas e quais são aquelas incorretas para os indivíduos.
O pai da psicanálise traça um paralelo entre a religião e o animismo. Neste texto, o teórico estabelece que o animismo precede a religião. Este seria caracterizado pela crença de que o mundo era habitado por demônios, espíritos, mas sem a presença de um Deus superior. Nele, o homem tinha como principal “poder” a magia, caracterizada pela onipotência do pensamento, ou seja, eles acreditavam que com o pensar e as palavras, eram capazes de mudar o ambiente. Neste sentido, a religião, que surge posteriormente, estabeleceu a adoração de animais, o “totem” (ou “símbolo” como parte do sistema religioso) e também os primeiros mandamentos éticos, os tabus. Neste sentido, Freud escreve o texto Totem & Tabu (1912-13), onde desenvolve de forma mais aprofundada esta teoria.
Freud estabelece uma relação da visão de mundo religiosa com experiências comuns na infância. Neste sentido, observa-se que na impossibilidade de lidar com o desamparo infantil, os desejos e a necessidade que prosseguem na vida adulta, o homem adulto reaviva a representação psíquica do pai em uma figura divina. Afinal, o sujeito detentor de uma visão de mundo religiosa passa a ter o seu desamparo minimizado, tendo em vista que as três grandes necessidades citadas no parágrafo anterior são atendidas.
Terminada esta breve teorização acerca da visão de mundo, Freud parte para estabelecer a problemática da relação entre a “crença” na ciência e na religião. Sendo assim, a religião estabelece como uma objeção à possibilidade de ser investigada pela ciência, a ideia de que ela dignificaria a vida humana e seria a “coisa mais bela que o ser humano já produziu”. Neste sentido, visa se posicionar como um campo superior e incontestável da experiência humana. Como refutação a essa ideia, o teórico diz que, o pensamento científico busca estabelecer uma relação com a realidade, ou seja, visa uma “verdade.” Neste sentido, de acordo com o autor, a religião não é, e ainda que pretenda ser, jamais poderá se firmar como substituta da ciência.
Sendo assim, o que a religião visa, na verdade, é a proibição da crítica/pensamento em prol da sua autopreservação. Em termos práticos, isso causa diversos problemas na vida do sujeito. Como forma de fundamentar esta questão, o autor demonstra que a sua experiência clínica trouxe a possibilidade da observação de diversos conflitos referentes a inibição da sexualidade feminina em decorrência de dogmas religiosos. Outros exemplos também são apresentados no texto, no que tange a leitura de biografias por parte do autor. Ele reconhece, no entanto, a importância desse pensamento no que se refere a unificação da sociedade, já que não seria possível cada um ter suas próprias regras morais em detrimento de um ideal coletivo. A partir disso, ele apresenta a hipótese de que a razão, no futuro, poderia substituir os dogmas religiosos, como forma de promover o espírito livre, ao mesmo tempo em que se mantém a coesão social.

            O autor prossegue fazendo referência a outras visões de mundo que se contrapõem à ciência. Sendo assim, ele cita o niilismo [que deriva do anarquismo] e o marxismo. A primeira, que parte da ciência, mas abandona os seus preceitos na sua constituição, preconiza a inexistência e o caráter ilusório da verdade, que seria um constructo proveniente das nossas próprias necessidades, ou seja, o homem veria aquilo que deseja ver. Sem um critério de verdade, todas as opiniões são, em última instância, fúteis, igualadas por serem desprovidas de valor. Também é frívolo, justamente por ser falso, todo o conhecimento, o que torna essa teoria inválida no que se refere ao cotidiano. Já quanto à segunda, a visão de mundo marxista, o teórico diz que deve ter maior importância. Ela preconiza que o desenvolvimento das formas de sociedade é um processo histórico natural, que os fatores econômicos exercem uma influência determinante sobre as atitudes humanas e que a estratificação na sociedade se dá a partir da dialética.  Freud refuta tanto o caráter natural, quanto a questão da dialética e a primazia das condições econômicas como promotoras dos aspectos psicológicos dos sujeitos. Neste sentido, o autor pontua que as condições psicológicas, a partir do domínio da natureza, influem na economia, o que retira esse caráter determinista proveniente da teoria marxista. Trata-se, aqui, de ler esta relação [estabelecida por Marx] como reducionista e incapaz de abarcar, por exemplo, a questão das pulsões, da necessidade de amor, da relação entre o prazer e o desprazer e as diferentes relações na economia que são estabelecidas a partir disso em cada sociedade. Freud, assim, não ignora a importância do aspecto econômico como motor de desenvolvimento da cultura, mas o estabelece como um dos pontos que podem ser pensados neste sentido.
Outra crítica que Freud estabelece ante ao marxismo é que este, em alguns casos, tal como na religião, firma a proibição do pensamento crítico. Este ponto diverge da Weltaunschaaung científica e afasta este pensamento da mesma. O marxismo se atém às próprias ilusões, prometendo um futuro melhor, no qual o ser humano alcançaria a sociedade perfeita. Freud novamente aponta para a influência dos fatores psicológicos subjetivos: é impossível que, a partir das questões psíquicas inerentes ao ser humano, exista uma sociedade perfeita, harmoniosa, sem leis, aonde todos trabalharem e que isso não gere qualquer tipo de conflito.
A conclusão de Freud é que a psicanálise não precisa de uma Weltanschaaung própria, já que faz parte da ciência. E que também este campo do saber não se pretende ser autossuficiente, nem tampouco criar sistemas e verdades absolutas. Sendo assim deve, no seu desenvolvimento teórico, se sustentar a partir destes pilares, como forma de ofertar sempre a busca pela “verdade” pautada numa leitura baseada na realidade.


Revisado por Antônio Alberto Almeida, Ana Clara Figueiredo e Sheila Beserra. da Equipe de Monitores de Psicanálise da PUC de São Paulo.

segunda-feira, 26 de março de 2012

"Terapia Analítica" (S. Freud, Conf. XXVIII, Vol. 16, 1916)

Freud introduz esta conferência comentando a respeito da sugestão como método de tratamento e seus efeitos. Estes equivaleriam aos efeitos de uma medicação psiquiátrica, já que seriam dirigidos contra a manifestação do sintoma. Em seguida, cita a hipnose, que teria como objetivo produzir efeitos semelhantes à sugestão, a partir de uma alteração do estado de consciência. Ele também afirma que o paciente pode perder a autoconfiança pelas repetidas hipnoses e ficar “viciado como se fosse um narcótico”. Tais observações impulsionaram-no a investigar por que a hipnose funcionava, já que as condições que permitiam um resultado favorável eram desconhecidas. Um paralelo entre hipnose e psicanálise começa a ser traçado, segundo o qual a psicanálise é colocada como se fosse uma cirurgia, e o tratamento sugestivo, um cosmético. A hipnose geraria melhoras mais rapidamente. Entretanto, Freud observa que a doença sempre retornava, ou que os sintomas eram deslocados. Então chega à conclusão de que os processos inconscientes que levavam à formação dos sintomas permaneciam presentes no psiquismo do sujeito. Dessa forma, a hipnose encobriria, então, a doença, e dependeria da capacidade de transferência do paciente, visto que o sucesso repousaria exatamente na sugestão. Se não bastasse, tal método proibiria os sintomas e fortaleceria as repressões, deixando o paciente vulnerável a adoecer novamente. Freud então coloca a sugestão como método da psicanálise, mas num sentido educativo, esta será como base para o andamento da análise. Afirma que a vida psíquica só pode ser modificada pelo trabalho de superação das resistências internas.


Um argumento feito por alguns críticos e rebatido por Freud é que estes afirmam que os dados clínicos não são confiáveis, já que se apoiam na transferência, de forma que aquilo que é vantajoso na clínica, não necessariamente é na teoria. A resposta de Freud é que os conflitos do paciente não podem ser resolvidos por meio da sugestão, mas que aquilo que o analista diz ao analisando só produz um efeito no mesmo quando esta interpretação coaduna com o que é real no paciente. Ou seja, a interpretação precisa ter um sentido para o analisando. Além disso, Freud fala que deve ser posto um fim aos êxitos imediatos durante o tratamento, uma vez que de fato eles são consequência da transferência, e que esta constitui uma diferença fundamental entre a terapia analítica e a terapia meramente sugestiva, uma vez que a psicanálise entende este êxito imediato como uma resistência.  Portanto, a eficácia do método interpretativo se dá a partir da superação das resistências.


Em seguida, descreve a cura com fórmulas da libido. Segundo ele, em situações saudáveis, o ego deveria ter a libido à sua disposição. Não é o que acontece, entretanto, com a libido do neurótico, que não se dirige a nenhum objeto real e está sob repressão, algo que demanda muita energia. Neste caso, o sintoma é a única satisfação da libido. A partir disso, a tarefa terapêutica seria remontar a origem dos sintomas para então liberar libido de suas ligações atuais e torna-la novamente utilizável pelo ego.


O trabalho, então, consistiria em duas fases: a primeira seria retirar a libido dos sintomas e esta seria colocada na relação transferencial. A segunda fase, seria a luta pelo novo objeto. A transferência possibilitaria o aparecimento de novas edições do conflito, ocorrendo uma doença transferencial que recebe o investimento que antes era dirigido ao sintoma. Mesmo nesta nova modulação, a libido tentaria chegar ao mesmo resultado. Entretanto, caberia ao analista reconduzi-la a outro rumo. Quando há êxito nesta tarefa, a libido é liberada do objeto temporário e não volta ao original, ficando à disposição do ego. Este se amplia e se concilia com ela, podendo então conceder-lhe satisfação. Ao final desta conferência, é feita uma comparação entre os sujeitos que Freud considera sadios e os que considera neuróticos. Para ele, os únicos sintomas da pessoa sadia seriam os sonhos (outras formações do inconsciente também podem fazer parte desses ‘sintomas’ que as pessoas normais produzem, como os atos falhos e os chistes). Ressalta ainda que a resistência externa atrapalha o tratamento e recomenda aceitar somente pacientes que não dependam de terceiros.


Escrito por Fernanda Bonilha e Fernanda Capuano 


Revisado por Antônio Almeida e Eduardo Zaidan.

Equipe da Monitoria de Psicanálise da PUC de São Paulo.