segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Vida Sexual dos Seres Humanos – Conf. XX, Vol. XVI, 1916/17


           Freud começa o texto discutindo possíveis definições para o que seria sexual no ser humano. No entanto, logo chega à conclusão de que o que habitualmente se chama de sexual (prazer do corpo, principalmente através dos órgãos sexuais, e que, em última instância, busca a união com os órgãos genitais do sexo oposto) não é suficiente para explicar outros comportamentos claramente sexuais como o contato homossexual, a masturbação, o fetichismo, entre outras manifestações desviantes que Freud inicialmente chama de perversões.  
Freud dividiu este grupo (pervertidos) entre aqueles em que o objeto sexual foi modificado e aqueles em que a finalidade sexual foi modificada. No primeiro grupo, encontramos aqueles que renunciaram a união dos dois genitais e que usam como fonte de prazer outra parte do corpo ou objetos específicos, por exemplo, peças de roupas (fetichistas). O segundo grupo de pervertidos é formado por aquelas pessoas que utilizam essas outras partes do corpo (ou objetos específicos) apenas no ato inicial ou preparatório do ato sexual para sentir prazer. Freud está falando de pessoas que sentem prazer em olhar outras pessoas, palpá-las, ou espiá-las durante os atos íntimos (atos iniciais preparatórios da cópula), sem que isto implique em uma posterior união dos genitais. Neste grupo é onde se encontra os chamados sádicos, que sentem satisfação em causar sofrimento aos seus objetos.
Em meio à descrição das perversões Freud justifica o aprofundamento neste tema alegando que é preciso dar uma explicação sobre como essas perversões estão conectadas com aquilo que descrevemos como sexualidade normal. Para ele, uma melhor compreensão das perversões viabilizaria uma melhor compreensão da sexualidade normal, uma vez que ambas partem de pressupostos que, do ponto de vista da organização, guardam uma certa semelhança
Freud nos faz relembrar que os sintomas neuróticos são substitutos da satisfação sexual e que na neurose histérica os sintomas podem ocorrer em qualquer órgão. Nos sintomas histéricos os órgãos metaforicamente substituídos pelos genitais são justamente aqueles que não possuem significação sexual. Freud, então, nos faz pensar que se para algumas pessoas existe uma dificuldade em obter uma satisfação sexual normal que as leva a inclinações pervertidas e que nada igual havia ocorrido antes, então suponhamos que nessas pessoas já se encontrava rastros das perversões, ou seja, as perversões já estavam presentes nessas pessoas de forma latente.
Isto, juntamente com a observação de crianças e a análise de adultos neuróticos, levou Freud a concluir que a perversão possuía suas origens na infância, de modo que toda criança demonstra uma pré-disposição à perversão. Para Freud, a perversão adulta não é nada mais do que “uma sexualidade infantil cindida em seus impulsos separados".
Além disso, Freud ressalta no texto, que, do ponto de vista da organização, a homossexualidade não é uma perversão. De acordo com o autor, há impulsos homossexuais nos neuróticos. Sendo assim, a questão da homossexualidade aparece apenas como uma inversão do objeto e não como uma organização perversa.  A homossexualidade, desta forma, pode aparecer em qualquer organização. O autor traz, no texto, exemplos de histeria e de paranoia relativos a tal questão.
O que se impõe aqui é, então, que a sexualidade vai muito além da função reprodutiva. Os senhores cometem o erro de confundir sexualidade com reprodução, o que lhes barra o caminho para o entedimento da sexualidade, das perversões e das neuroses. (FREUD, 1917.) Para dar conta do citado anteriormente, as teorizações psicanalíticas acerca da temática partem da sexualidade infantil. E do conceito de “libido”, que é a energia sexual  - e  se manifesta através da pulsão.
O pai da psicanálise afirma que os primeiros impulsos sexuais de uma criança tem seu aparecimento ligado com as funções vitais. Como, por exemplo, a satisfação depois do bebê amamentar no seio materno e posteriormente ao repetir o ato sem ao menos estar com fome, só que usando do seu próprio corpo, ou seja, sugando o dedo ou a língua. O autor descreve este ato como sucção sensual e de zonas erógenas as partes do corpo (boca e lábio) como locais de excitação.  Com isto podemos concluir que os bebês executam ações com o propósito de obter prazer.
Ao analisarmos o fato de que uma criança possui  sexualidade, Freud demonstra que a sexualidade infantil é do tipo pervertido. Para o autor, há nesta fase da vida, a perversão polimorfa. Ele parte, para fazer tal afirmação, de que as crianças são desprovidas daquilo que transforma a sexualidade em função reprodutiva. Sendo assim, é importante ressaltar que o abandono da função reprodutiva e a permanência da obtenção de prazer é o aspecto comum de todas as perversões. Por outro lado, é característica comum a todas as perversões o fato de elas terem renunciado à meta de reprodução. (FREUD, 1916.) A questão que se impõe aqui, então, é que a sexualidade infantil não é barrada pela castração. Ou seja, a criança não remete os seus comportamentos sexuais a questão da lei, como na neurose.
É importante diferenciar, diante das informações apresentadas, que a característica primordial das perversões vai ser o fetichismo, ou seja, a substituição de um objeto (que aqui o autor classifica como função reprodutiva) por outro.  Isso não torna, os comportamentos sexuais que estão para além da reprodução, como perversos, como o próprio autor cita e já foi dito no parágrafo anterior. A sexualidade vai além da função reprodutiva e os comportamentos sexuais também. Trata-se, aqui, de pensar em um outro ângulo e de analisar caso a caso.
Retomando  as investigações sexuais da criança, Freud destaca que a observação acerca da atividade sexual de uma criança pode começar antes dos 3 anos. Primeiro, o autor traz o exemplo dos meninos. Quando um destes   descobre que as mulheres não tem pênis, ele supõe que um dia elas tiveram, mas que esse caiu ou foi cortado. Mais tarde, amedronta-se com tal possibilidade e qualquer ameaça feita sobre seu órgão genital gera um retraimento nele. O menino, então, entra  no complexo de castração,  que está diretamente relacionado a saída do complexo de Édipo e, consequentemente, na organização psíquica da criança, pois é o que posteriormente implicará em um posicionamento diante do desejo da mãe e nas questões posteriores relativas ao final do Édipo.
No caso das meninas, elas invejam os meninos por não possuírem um pênis e desenvolvem assim o desejo de ter um pênis. De acordo com o autor,  este fenômeno se desdobra em um desejo de ser homem, o que pode transcorrer em problemas relativos ao papel feminino na idade adulta, na neurose.
Freud traz a questão de que o interessante sexual das crianças está primordialmente ligado ao fato de querer saber de onde elas vêm. Diante disso, as mesmas, em diferentes idade, apresentam hipóteses diferentes acerca do fenômeno. O autor traz exemplo  para dar uma finalização ao texto que visou demonstrar que a sexualidade na psicanálise tem uma amplitude para além do senso comum, mas que no entanto, não perde a sua associação com a questão fenômica apresentada no termo. Tratou-se, assim, neste texto, de observar de um “para além”, que não perdeu o seu rigor conceitual.

Revisado por Antônio Alberto Almeida e Aline Marcelino da Equipe de Monitores de Psicanálise do Curso de Psicologia da PUC/SP.


O Desenvolvimento da Libido e as Organizações Sexuais – Conferência XXI – Vol. XVI – 1916/17


Neste texto Freud retoma a discussão da conferência XX (“A Vida Sexual dos Seres Humanos”) acerca de possíveis definições do que seria a sexualidade humana. Logo de início ele reitera que definir sexualidade unicamente como função reprodutiva é insuficiente, uma vez que existe uma sexualidade infantil e que as perversões também são manifestamente sexuais, apesar destas não terem a união dos genitais como finalidade última.
                Quanto às perversões, Freud afirma que a repulsa que em geral elas provocam nas pessoas esconde, na verdade, um perigo de sedução, uma forte atração que precisa permanecer latente; como se aqueles que julgam moralmente os perversos, no fundo, inconscientemente, sentissem inveja da maneira como eles vivem sua sexualidade. Freud afirma ainda que dificilmente não há traços de perversão na vida sexual das pessoas que ele chama de normais.
                O beijo, o prazer em olhar e tocar outras regiões do corpo (que não os genitais), o sexo oral, a masturbação, todos esses contatos sexuais que não envolvem penetração podem facilmente culminar com o gozo e a emissão de produtos genitais, inclusive na sexualidade normal. A partir dessa afirmação Freud alega não haver um abismo entre a sexualidade normal e a perversa. A diferença entre as duas estaria no fato desta abandonar completamente o ato sexual, substituindo-o por outros contatos sexuais. Já a sexualidade normal, apesar de se utilizar de ações pervertidas de maneira preparatória, como forma de intensificação do prazer sexual, sempre terá como finalidade a união dos genitais.
                Em seguida Freud aproxima ainda mais a sexualidade normal da perversa, concluindo que ambas são oriundas de uma sexualidade infantil polimorfa que posteriormente passou por um processo de centralização onde se delimitou quais seriam os fins sexuais de cada uma. Deste modo, segundo Freud tanto a perversão como a sexualidade normal passaram a estar sujeitas a uma “bem organizada tirania”.
                Ao analisar sintomas de pacientes histéricas (neurose de conversão) e se aproximar de conflitos de ordem sexual advindos da infância, Freud pôde perceber com mais clareza a existência de uma sexualidade infantil, onde já estaria presente a busca pelo prazer do órgão.  Para ele nós só não nos lembramos das manifestações sexuais da primeira infância porque no período de latência (sexto ao oitavo ano de vida) tais memórias são recalcadas. Segundo Freud boa parte do trabalho da análise consiste em trazer à consciência essa memória.    
A vida sexual dos seres humanos começaria logo após o nascimento do bebê, na amamentação. Isso porque a ação de mamar não consiste apenas em satisfazer uma necessidade biológica de se alimentar, uma vez que já apresenta um componente erótico (o bebê tem prazer ao sugar o seio materno). Aqui, assim como ocorre na fase anal, o bebê também já consegue ter prazer com seu próprio corpo (autoerotismo), independentemente de um objeto externo. Mesmo quando já alimentado, o bebê continua estimulando sua boca com seu próprio corpo (chupando o dedo).
A fase posterior à fase oral é a fase sádico-anal, pré-genital. Nessa fase a criança ainda não entrou em contato com a diferença entre masculino e feminino, mas sim entre passivo e ativo. O que está em jogo aqui em um instinto de domínio ligado aos genitais, e um fim passivo ligado ao anus. Apesar de anteceder a fase de primazia genital, onde já há um objeto externo bem definido, na fase sádico-anal o desejo da criança ainda é polimorfo, ainda não tem definido um objeto específico onde investir a libido.
A passagem por estas duas fases e a entrada na fase fálica precisa cumprir dois objetivos. O primeiro consiste em abandonar o autoerotismo, de modo a substituir o próprio corpo por um objeto de desejo externo. O segundo consiste em substituir diversos objetos por um único objeto de desejo, um corpo total separado e semelhante ao próprio sujeito. Freud afirma que esse segundo objetivo se dá logo antes da puberdade, e que o novo objeto unificado é a mãe. Assim, a mãe se constitui como o primeiro objeto de amor, o que tem importantes implicações para o desenvolvimento da criança (entrada no complexo de Édipo). É também nesse momento que se inicia o período de latência (amnésia infantil), pois o menino recalca os impulsos incestuosos dirigidos à mãe e os impulsos hostis dirigidos ao pai. Na menina ocorre a mesma coisa, só que de maneira inversa. A rivalidade/hostilidade se dá em relação à mãe e a ligação amorosa em relação ao pai, sempre mais amoroso com a menina do que com o menino.
Passado o período de latência, na adolescência os impulsos sexuais passam a se expressar intensamente, de modo que as catexias incestuosas são restabelecidas. Isso dá origem a fortes conflitos que, em grande medida, são recalcados e continuam existindo apenas no inconsciente (aqui, em 1916, ainda não se fala em id e nem em segunda tópica), onde os afetos ambivalentes podem conviver. Inicia-se, assim, com a proximidade da vida adulta, o árduo desafio de desinvestir libidinalmente as relações edipianas e conseguir investir em outras relações fora da família. Com o sucesso dessa separação dos pais (resolução do complexo de Édipo) o sujeito deixaria de ocupar o lugar de criança e passaria a ocupar o lugar de adulto na comunidade social.

Realizado pelos monitores Andrei Cattaruzzi Gerasimczuk e Ivens Queiroz Cavalcante, da Equipe de Monitores de Psicanálise do Curso de Psicologia da PUC/SP.

domingo, 16 de setembro de 2012

Considerações sobre os Verbetes do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis - TÓPICA, RECALQUE ORIGINÁRIO E NARCISISMO


Tópica:

. Teoria dos lugares.
. Diferenciação do aparelho psíquico em sistemas dotados de características diferentes com relações entre si. Podemos considerar metaforicamente como lugares psíquicos.
. Na teoria Freudiana são duas tópicas: 1ª: distinção entre Inconsciente, Pré-consciente e Consciente; 2ª: distinção entre id, ego e superego.
. Hipótese freudiana: origem num contexto científico de que nos limitaremos a indicar elementos mais imediatamente determinantes.
. Hipótese anátomo-fisiológica: funções especializadas ou tipos específicos de representações dependeriam de suportes neurológicos rigorosamente localizados.
. Psicologia patológica: grupos psíquicos diferentes, comportamentos, representações, lembranças que não estão continuamente e no seu conjunto à disposição do sujeito, mas que podem mostrar sua eficácia: fenômenos hipnóticos, casos de desdobramento de personalidade, etc.
. Inconsciente: organização por camadas – sentido lógico, pois as associações entre as diversas representações realizam-se segundo modalidades diversas. Constituído a partir do recalque originário.
. Tomada de consciência: reintegração das lembranças inconscientes no ego – descrita segundo um modelo especialmente figurado: “desfiladeiro” que só deixa passar uma lembrança de cada vez para o “espaço do ego”.
. Reformulação da primeira tópica em segunda tópica: defesas inconscientes passam a cada vez mais serem levadas em consideração;
. A primeira concepção tópica do aparelho psíquico é apresentada no capítulo VII de A interpretação de sonhos (1900) e será desenvolvida nos textos metapsicológicos de 1915 onde os três sistemas serão distinguidos: inconsciente, pré-consciente e consciente; cada um com sua função, tipo de processo e sua energia de investimento. Essa distinção não pode ser separada da concepção dinâmica, segundo a qual os sistemas se acham em conflitos entre si.


Recalque Originário:

. Primeiro momento da operação do recalque. Tem como efeito a formação de um certo número de representações inconscientes.
. É postulado a partir de seus efeitos: uma representação não pode ser recalcada se não sofrer, simultaneamente com uma ação proveniente da instância superior, uma atração por parte dos conteúdos que já são inconscientes.
. Resulta na formação de uma quantidade de representações inconscientes (“recalcado originário”). Posteriormente, esses núcleos inconscientes vão exercer uma atração sobre conteúdos a serem recalcados, ajudando, portanto, no recalque propriamente dito;
. Caso Schreber: primeiro momento do recalque já é descrito como fixação (concebida como “inibição de desenvolvimento”). É uma fixação da pulsão numa representação e uma inscrição desta representação no inconsciente.
. Recalque originário: primeira fase do recalque que consiste no fato de ser recusado ao representante psíquico da pulsão o acesso ao inconsciente. Com ele se produz uma fixação onde o representante correspondente subsiste a partir daí de forma inalterável e a pulsão permanece ligada a ele.
. É um contra – investimento – noção que permanece obscura para Freud.
. Procurar origem em experiências arcaicas muito fortes.

Narcisismo:

. Referência ao mito de Narciso – amor pela imagem de si mesmo.
. Termo aparece pela primeira vez em 1910 para explicar a escolha de objeto nos homossexuais - partem do narcisismo e procuram pessoas que se parecem com eles;
.Caso Schreber: existência de uma fase intermediária entre o auto – erotismo e o amor pelo objeto. “O sujeito começa por tomar a si mesmo, ao seu próprio corpo, como objeto de amor”, o que permite uma primeira unificação das pulsões sexuais.
. Narcisismo não surge como uma fase evolutiva, mas como uma estase da libido que nenhum investimento de objeto permite ultrapassar completamente.
.Neurose Narcísica: possibilidade que a libido tem de reinvestir o ego (“libido do ego”), desinvestindo, portanto, o objeto (“libido do objeto”);
.  Narcisismo infantil como um dos momentos formadores do ego:  quando o ego é tomado como objeto de amor;
. Identificação narcísica com o objeto. Imagem que o sujeito adquire de si mesmo segundo o modelo do outro, e que é precisamente o ego. (concepção que cai com a elaboração da segunda teoria do aparelho psíquico).
. Freud acaba opondo de forma global um estado narcísico primitivo (primário) e relações com o objeto.
. Narcisismo primário: ausência total de relações com o meio, por uma indiferenciação entre o ego e o id.
. Idéia de um narcisismo a partir da formação do ego por identificação com o outro não é abandonada e passa a ser denominada como narcisismo secundário. – captação amorosa da imagem que outra pessoa tem do indivíduo, interiorização de uma relação intersubjetiva. Libido que aflui ao ego pelas identificações, sendo retirado dos objetos.

Elaborado por Fernanda Capuano e Renata Siqueira da
 Equipe de Monitoria de Psicanálise da PUC/SP

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Resumo do texto Identificação – Psicologia de Grupo e Análise do Ego, cap. VII, Vol. XVIII, 1921

O capítulo “identificação”, está presente no texto Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921.) Neste, ao longo das suas dissertações, Freud aborda a questão do que constitui e como ocorre a formação das massas, diferenciando-a dos grupos e de outros tipos de laço social.
O pai da psicanálise inicia o texto relatando que a identificação foi a primeira forma de ligação afetiva entre  as pessoas. A partir disso, então, estabelece a relação com a pré-história (ao longo do seu artigo, retoma várias vezes o texto Totem & Tabu, onde aborda a questão da formação da civilização e os aspectos primitivos do psiquismo e sua forte relação com o complexo de Édipo. A questão que se impõe aí é, então, a ligação com o pai e a ambivalência (o amor e a agressividade) em relação a mãe presentes ao longo do fenômeno citado anteriormente. A identificação ao pai adquire tons de hostilidade ao final da fase Edípica, em decorrência do mesmo ser tomado como um obstáculo em relação a sua mãe, que por sua vez, é tomada a partir de uma outra ligação psicológica que não a identificação, a de ser tomada como objeto.
O autor faz esta retomada para diferenciar, aprofundado o que já foi dito no parágrafo anterior, a questão da identificação versus a tomada como objeto. Neste sentido, o pai é tomado como modelo, aquilo que o sujeito gostaria de ser, enquanto a mãe é tomada como objeto, aquilo que ele gostaria de ter. Logo, a identificação, neste sentido, pode provocar uma mudança no eu, enquanto a ligação via investimento objetal direto não, pois é de uma outra natureza, que não envolve a questão do querer ser, tampouco do modelo.
No momento seguinte do texto, o pai da psicanálise aprofunda a relação entre as duas formas de ligação, a partir da relação com a formação neurótica dos sintomas. Diante disso, traz como exemplo hipotético para ilustrar as possibilidades de relação com o objeto, uma garota que apresenta um sintoma de tosse. A partir disso, ele aborda, primeiro, a possibilidade de que, no complexo de Édipo, que já foi citado anteriormente, o desejo de ocupar o lugar da mãe pode ter gerado um sentimento de culpa e sintomas associados a isso.
Depois, demonstra, a partir do exemplo citado, fazendo alusão ao Caso Dora (O Caso Dora é um famoso caso de histeria estudado por Freud, que está publicado no Vol VII, Fragmentos da Análise de Um Caso de Histeria. Aqui, o autor faz esta retomada para dizer que um dos seus sintomas era a imitação da tosse do pai) que a identificação pode se confundir com a escolha do objeto. De acordo com o autor, neste caso, a identificação tomou o lugar da escolha de objeto, e a escolha de objeto regrediu à identificação. (FREUD, 1921). Desta forma, pode ocorrer na formação dos sintomas, que as duas formas de ligação estejam presentes e se confundam, ou se alternem.
Na última forma citada da relação entre as ligações com o objeto e a formação e sintomas, Freud traz um exemplo de um grupo de garotas que vê uma outra receber a carta de um amante em um pensionato, uma carta que lhe desperta ciúme e a faz ter um ataque histérico. Aqui, em decorrência do sentimento de culpa gerado pelo fato de que o grupo de garotas também queria receber uma carta de amor, elas se identificam a essa outra e também tem um ataque histérico. Freud diz que este tipo de identificação desconsidera totalmente a relação objetal, ocorre, neste exemplo, uma identificação a partir da disposição afetiva que se desloca para o sintoma que Eu produziu. (FREUD, 1921.)
A partir dessas proposições, Freud retoma a questão das massas, presente nos capítulos anteriores. Ele lança a hipótese de que, na massa, ocorre uma identificação, que ocorre por via afetiva, na ligação com o líder. Aqui, é importante ressaltar que se trata de um recorte de um capítulo. Ao longo do texto, o autor constrói a questão da formação das massas e esta é citada anteriormente, a partir de diversas hipóteses, ângulos e autores.
Por fim, o autor traz a questão da introjecção de objeto na melancolia. Aqui, a perda real ou afetiva do objeto amado provoca sentimento de culpa e auto depreciação. O que acontece, é que o objeto permanece presente no psiquismo, ou seja, é incorporado no mesmo. O Eu é, então, dividido, uma parte, que contém a consciência crítica e o objeto, recrimina a outra. Freud classifica esta parte, aqui de Ideal de Eu. Nós a chamamos de Ideal de Eu e lhe atribuímos funções como auto-observação, consciência moral, censura do sonho e principal influência na repressão. (FREUD, 1921)
Desta forma, é possível dizer que, a partir da introjeção do objeto na melancolia, há um distanciamento entre o Ideal do Eu e o Eu Real, o que gera as questões citadas no parágrafo anterior. O autor desenvolve acerca da temática no texto Luto e Melancolia (1917) de modo que retoma esta questão, aqui, apenas para ilustrar uma possibilidade de relação com o objeto.

Elaborado por Antônio Alberto Almeida e Regina Cordeiro da equipe de monitores de Psicanálise da PUC/SP.

BIBLIOGRAFIA.

FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu [1921]. In: Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923) tradução e notas Paulo César de Souza – São Paulo, Companhia das Letras, 2011.

terça-feira, 1 de maio de 2012

"Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise" (S. Freud, in Obras Completas, VOL XII, 1912)

"Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise" (S. Freud, in Obras Completas, VOL XII, 1912)

No texto em tela, Freud tece recomendações acerca do método psicanalítico direcionadas à manutenção da escuta psicanalítica, da atenção flutuante.  
a.     Freud aponta a necessidade, por parte do analista, de recordar os relatos pronunciados por cada paciente. Ele esclarece que, com a técnica da atenção flutuante, o analista não precisa tomar notas durante a sessão. “(…) escutar e não se preocupar em anotar alguma coisa”. Em outras palavras, tratar-se-ia de uma contrapartida à associação livre feita pelo analisando, na medida em que o analista, ao não tentar compreender e lembrar, estaria lançando mão da sua “memória inconsciente”.
b.       No mesmo sentido, há a recomendação de não tomar notas no decorrer da sessão. A ação de tomar notas seria uma forma de seleção sobre aquilo que é trazido pelo paciente, isto é, seria uma forma de fixar mais ou menos atenção sobre esse ou aquele elemento da associação livre, o que se oporia à ideia da escuta despreocupada quanto à lembrança ou não de alguma associação trazida pelo paciente.
c.      Também quanto à possibilidade de tomar notas, ainda que para fins científicos, Freud descarta a possibilidade de fazê-las durante a sessão sem que isso prejudicasse a atenção flutuante. Assim, essas anotações poderiam ser feitas após a sessão. Falando novamente sobre a construção científica em cima de um caso, Freud aconselha que estes sejam trabalhados cientificamente apenas após o seu encerramento, visto que “(…) são mais bem sucedidos os casos em que agimos sem propósito, surpreendendo-nos a cada virada, e que abordamos sempre de modo desapercebido e sem pressupostos (…) não  especular e nem cogitar enquanto analisa”.     Freud empreende, então, uma analogia entre o trabalho do terapeuta e o trabalho de um cirurgião. O cirurgião, assim como o analista, deve deixar todos os seus afetos de lado de forma que esteja em jogo, no momento da cirurgia, apenas a operação, que deve ser realizada da melhor forma possível. Assim, a “ambição terapêutica”, a ambição de curar, seria o mais perigoso sentimento para o psicanalista. Destarte, o analista não deve se ater às expectativas, ao reconhecimento, ao retraimento perante as críticas. Esses afetos apenas trabalhariam em desfavor do paciente, assim como em uma cirurgia.
f.       Nesse item, Freud novamente pontua a atenção flutuante do analista como contrapartida à regra fundamental da psicanálise: a associação livre. Aqui é feita a analogia com a comunicação via telefone: as ondas sonoras emitidas são transformadas pelo aparelho em oscilações elétricas, que são novamente revertidas em ondas sonoras pelo receptor. O analista, assim como o receptor, posiciona o inconsciente (ondas sonoras) a partir da associação livre (oscilações elétricas). “(…) ele [o analista] deve voltar o seu inconsciente, como órgão receptor, para o inconsciente do emissor do doente, colocar-se ante o analisando como o receptor em relação ao microfone.” Todavia, Freud ressalta que o analista, para tanto, não pode ter em si resistências que o impeçam de entrar em contato com aquilo que fora percebido por seu inconsciente. As resistências do analista se caracterizariam, pois, como uma outra forma de seleção e distorção do material do paciente. Como solução para esse problema é prescrita a necessidade de que o analista se submeta também a uma análise (a não ser que se trate daqueles que conseguem analisar seus próprios sonhos, isto é, realizar a autoanálise). O risco da dispensa da autoanálise ou da análise por parte do analista residiria na possibilidade de uma projeção na ciência das peculiaridades de sua pessoa, o que poderia enviesar a sua percepção e interpretação.
g.       Outra ressalva colocada diz respeito à transferência. O analista não deveria trocar confidências e relatar sobre a sua vida, suas intimidades e seus conflitos mentais com o paciente. Freud reconhece que esse comportamento poderia ser eficaz para que o paciente contasse aquilo que ele próprio já sabe (aquilo que é da ordem da consciência), mas dificultaria o desvelamento do que resta inconsciente. Essa técnica de compartilhamento afetiva apenas faria com que o paciente tivesse ainda mais problemas na superação das suas resistências e poderia fazer com que o paciente tentasse inverter a relação analista-paciente, creditando mais interesse à vida do analista que a sua própria. “O médico deve ser opaco para o analisando, e, tal como um espelho, não mostrar senão o que lhe é mostrado”.
h.     Tão pouco o médico deveria repousar sobre o paciente ambições pedagógicas, assim como não deveria operar com a ambição terapêutica, pois deve respeitar as limitações do doente, colocando as capacidades do mesmo sempre a frente do seu próprio desejo.
i.         Por fim, é feita a ressalva acerca de uma colaboração intelectual do paciente. Freud aponta que a leitura de textos sobre a psicanálise não deveria ser proposta pelo analista, na medida em que o próprio analisando precisaria traçar seu próprio caminho na análise, sem recorrer em demasia à teorização. A eficácia da análise seria advento do respeito à regra psicanalítica e não do conhecimento teórico sobre a psicanálise.

É válido reiterar que Freud solidifica no texto em questão a atenção flutuante e a associação livre como pilares da prática psicanalítica e as recomendações traçadas convergem para a operacionalização das mesmas.  

Escrito por Camila Gerassi e Claudia O’Keeffe 

Revisado por Equipe de Monitores de Psicanálise da PUC/SP.