terça-feira, 6 de novembro de 2012

Resumo: “Dissolução do Complexo de Édipo” – 1924

Inicialmente, Freud afirma que o Complexo de Édipo é um importante fenômeno central do período da primeira infância e que, após isso, é efetuada sua dissolução seguida do período de latência. Isso ocorre devido a experiências de desapontamentos penosos associados à fase genital, ameaças, castração e à constituição do superego.
Isso ocorre porque, no caso da menina, há a necessidade de considerar-se como aquilo que o pai ama acima de tudo, porém, sofre uma dura punição por parte dele. No caso do menino, há a descoberta de que a mãe, sua prioridade, transferiu seu amor a um recém-chegado. Com isso, a ausência da satisfação esperada faz com que o sujeito não tenha esperanças e, desse modo, encaminhe o Complexo de Édipo para a destruição devido a falta de sucesso.
Outra possibilidade explicada por Freud é a de que o fim do Complexo de Édipo é um fenômeno determinado pela hereditariedade, como uma passagem necessária em que chegou a hora da sua desintegração, sendo predeterminada do desenvolvimento.
Freud não garante, entretanto, a uniformidade da sequência temporal e o encadeamento dos processos citados e faz uma afirmação relevante: a dissolução do complexo seria um desfecho ideal, enquanto que a simples repressão do mesmo teria por consequência a patologia.
Postas as duas concepções, o autor indica que ambas são fundamentadas, mas não incompatíveis entre si. Dessa forma, haveria espaço tanto para a concepção filogenética, quanto para a ontogênica.
                  Freud segue afirmando que o desenvolvimento sexual da criança avança até o momento em que o órgão genital masculino assume o papel principal, uma vez que o órgão genital feminino permanece irrevelado. Esse período é marcado pela fase fálica onde a castração se faz presente. É seguida pelo período de latência.
                  A castração ocorre quando a criança reconhece seu órgão genial e manipula-o, fazendo com que os adultos reprovem tal comportamento. A partir dai, começam as ameaças, onde os pais afirmam para as crianças que aquele órgão tão desejado por elas poderá ser tirado. Há a ideia simbólica de culpar à mão por estar fazendo aquilo ou por culpar os meninos de molharem suas camas todas as noites.
                  A organização genital fálica teria fim frente à ameaça de castração. O que ocorre é que o menino não acredita na ameaça e, com isso, duas coisas importantes preparam as crianças para perdas de partes do corpo. Elas seriam a retirada do seio materno e a exigência de soltarem conteúdos de seus intestinos.
Com efeito, o complexo de Édipo oferece ao menino duas alternativas para a obtenção de sua satisfação. Em ambos os casos a possibilidade de castração acarretaria na incapacidade de obtê-la. Dada a inviabilidade da obtenção de satisfação a partir do complexo de Édipo, há um conflito entre o interesse narcísico referente ao pênis e o investimento libidinal dos objetos parentais, conflito o qual é vencido, geralmente, pela primeira dessas forças, o que resulta no afastamento do Ego do complexo de Édipo. O que ocorre em seguida é uma troca, pois os investimentos objetais da criança frente os seus pais são substituídos pela identificação.
O complexo de Édipo nas meninas também passa pelo complexo de castração e por uma organização fálica, mas ocorre de maneira diferente daquela dos meninos. A principal diferença entre o menino e a menina, no que diz respeito à castração, é que a menina acredita já ter tido um órgão como o do menino, o qual já foi perdido. Isso ocorre quando ela tem visão da região genital feminina e fica indignada ao perceber a ausência do pênis numa criatura tão semelhante a um menino assim.
 Deste modo, as meninas aceitariam a castração como fato consumado, não havendo o temor da castração como nos meninos, mas sim o temor à perda do amor. O complexo de Édipo para ela culminaria no desejo de receber um filho do pai, desejo que uma vez não concretizado, resultaria na dissolução do complexo. Os desejos de ter um pênis e um filho permanecem investidos no inconsciente da garota, criando espaço para a preparação de seu papel sexual futuro.
                  É iniciado o período de latência, onde a autoridade dos pais é introjetada no ego, formando o núcleo do superego da criança. Isso porque o superego se caracteriza como a instância psíquica que mantém a repressão e proibição do incesto, protegendo o Ego contra o retorno do investimento libidinal a objeto proibido.
Para as meninas, há uma interpretação a cerca do fato dela sempre achar que teve um pênis, uma vez que seu clitóris comportava-se exatamente como um. Ao brincar com uma criança do sexo oposto, a menina percebe a injustiça e a inferioridade por não ter um órgão genital masculino. Desse modo, a menina entende a castração como um fato consumado, diferente do menino que tem medo da possibilidade de sua ocorrência.
Freud aponta que a motivação para a construção do superego e a demolição da organização genital infantil estaria mais ligada à educação, à intimidação externa, “que ameaça com ausência de amor.” Os desejos de possuir um pênis e ter um filho com o pai jamais se realizarão e, por isso, permanecerão catexizados no inconsciente dela, preparando-a para seu papel futuro.
Nesse sentido, o complexo de Édipo implica na existência de uma organização fálica infantil sendo universal a ameaça de castração que resultará na sua dissolução, no período de latência e na formação de um Superego.


Preparado por Camila Gerassi e Pedro Márky da Equipe de Monitores de Psicanálise da PUC de São Paulo.


Considerações sobre os Verbetes do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis – “Princípio do Prazer, de Realidade, do Nirvana”



Princípio do Prazer: princípio que descreve o fato de a atividade psíquica ter por objetivo evitar o desprazer e proporcionar o prazer. Desprazer é entendido como a percepção, por parte do sistema perceptivo-consciente, do aumento de tensão interna. Prazer seria a volta a um nível baixo de tensão, atingido na satisfação de desejos (por meio de vivências de satisfação ou de sonhos, por exemplo). Assim, o Princípio do Prazer está relacionado com o Princípio da Constância (que representa a tendência do aparelho psíquico em manter constante o nível de tensão), ora se aproximando, ora se distanciando desse ao longo da teoria.
De início, as pulsões só procurariam descarregar-se, satisfazer-se pelos caminhos mais curtos (Princípio do Prazer). Com o desenvolvimento do sujeito, modicam-se pelo Princípio da Realidade.
Princípio da Realidade: modifica o princípio do prazer, impondo-se como regulador, fazendo com que a busca de satisfação sofra desvios e adie seu resultado. Sua instauração corresponde a uma série de adaptações que o aparelho psíquico tem de sofrer a fim de desenvolver funções da consciência, como atenção, juízo, memória e pensamento.
“Por um lado, o Princípio da Realidade garante a obtenção das satisfações no real e, por outro, o Princípio do Prazer continua a reinar” no campo das fantasias e dos processos inconscientes.
O Princípio da Realidade explica o funcionamento das pulsões de auto-conservação (pulsões do eu). Estas são levadas a reconhecer o domínio do Princípio da Realidade, enquanto as pulsões sexuais “se educam [se submetem a ele] com atraso e sempre de modo imperfeito”.
(há, contud0, contradições e embates teóricos relacionados ao início da manifestações de cada princípio no desenvolvimento do sujeito. Ver página 369 do vocabulário.)
Princípio de Nirvana: princípio que designa a tendência de o aparelho psíquico levar a zero o nível de tensão. Advém da religião budista, onde designa a “extinção” do desejo humano, o aniquilamento da individualidade, um estado de quietude e de felicidade perfeita. Exprime a tendência da pulsão de morte, sugerindo uma ligação profunda entre a busca do prazer (desprazer) e o aniquilamento.

Realizado pelo aluno Mario Otero Filho, da Equipe de Monitores de Psicanálise do Curso de Psicologia da PUC/SP.

"Ansiedade e Vida Pulsional" (Sigmund Freud, Conferência XXXII, Vol. XXII, 1933)

Ansiedade e vida instintual (S. Freud, Conf. XXXII, vol. XXII, 1933)
Nesta conferência, Freud descreve a ansiedade[1] como um estado afetivo, que seria uma combinação de certos sentimentos da série prazer-desprazer, mas, ao mesmo tempo, teria como protótipo a primeira experiência de ansiedade. Segundo Freud, essa experiência é o nascimento, e chama essa primeira ansiedade de tóxica. Logo em seguida, Freud aponta para a possibilidade de distinguir a ansiedade realística da neurótica. Enquanto a realística parece propositada, uma vez que seria precipitada por um perigo, a neurótica permanecia enigmática.
Enquanto a ansiedade realística poderia ser reduzida a um estado de atenção produzido pelo sinal de perigo, preparando assim uma reação de fuga ou defesa; já a ansiedade neurótica seria observada em três situações. A primeira delas é na forma livremente flutuante, que seria a ansiedade expectante. A segunda seria encontrada nas fobias, em que é possível perceber uma vinculação com um perigo externo, mas o medo seria exagerado. E a terceira, que seria a ansiedade na histeria e em outras formas de neurose grave.
Segundo Freud, a experiência clínica revelou que a ansiedade expectante estaria relacionada à economia libidinal da vida sexual. Assim, a causa mais comum da neurose de angústia seria a excitação não consumada, ou seja, uma excitação libidinal não satisfeita, de forma que o estado de apreensão surgiria no lugar dessa libido que foi desviada de sua utilização. Para Freud, tanto as fobias infantis como a ansiedade expectante da neurose de angústia teriam origem numa transformação direta da libido. A ansiedade na histeria e em outras neuroses, entretanto, seria consequência do recalque.
O recalque atua sobre uma representação, entretanto existe uma quota de afeto que estava ligada a essa representação, e que é transformada em ansiedade. Assim, uma quota de libido se tornou não-utilizável, seja por uma debilidade infantil do ego, como nas fobias infantis, ou por processos somáticos da vida sexual, na neurose de angústia, ou devido ao recalque, como na histeria.
Para Freud, a ansiedade neurótica será produto de um medo da própria libido. Assim, por exemplo na fobia, observa-se a ação do mecanismo de deslocamento, uma vez que um perigo interno é transformado num perigo externo, de forma que, aparentemente, observa-se uma ansiedade realística, mas que na verdade tem origem na vida pulsional[2].
A mudança de uma primeira teoria da ansiedade para uma segunda, refere-se especialmente à constatação de que a ansiedade não é produto do recalque, mas que a ansiedade causaria o recalque. Tal como Freud havia anunciado que a ansiedade seria consequência de uma situação de perigo, aqui também ele afirma que, quando um menino abandona a mãe como escolha objetal, isso se daria por conta de uma experiência de ansiedade, que seria o medo de ser castrado. Assim, o que produziria o recalque seria o temor da castração. De acordo com Freud, a castração não é o único perigo que poderia ser motivo para o recalque. Há um estádio de imaturidade do ego em que haveria um medo da perda do amor. Já na fase fálica haveria o medo de ser castrado. E, mais tarde, um temor do superego, que seria uma ansiedade moral. Assim, na segunda teoria da ansiedade, além de afirmar que a ansiedade faz o recalque, também atribui à situação pulsional temida uma situação de perigo externa.
De acordo com Freud, o ego perceberia a experiência de satisfação pulsional como possibilidade de recriação de uma situação de perigo. Por conta disso, esse investimento pulsional precisa ser abandonado. Se o ego é forte, ele atrai o impulso para si. Mas, caso o impulso ainda pertença ao id, e o ego se sinta fraco, ele pode utilizar da ansiedade para produzir uma experiência de desprazer, e considerando o funcionamento primário do inconsciente no princípio de prazer-desprazer, então haveria a instalação do recalque dessa pulsão.
Freud também esclarece que haveria duas fases anteriores à fase fálica, que são a fase oral e a fase sádico-anal. Haveria, na primeira fase (a fase oral), a questão de uma incorporação oral. Já na fase sádico-anal apareceriam as tendências destrutivas e as tendências afetuosas em relação ao objeto, sendo as primeiras de destruir e perder, e as segundas de manter e possuir. Segundo Freud, existe uma relação entre as disposições na evolução da libido, e o desenvolvimento das neuroses.
Também há, nesta conferência, uma mudança da primeira teoria das pulsões para a segunda. Freud utiliza o termo ‘Trieb’ [pulsão] para nomear uma quantidade de energia que faz pressão em uma determinada direção, que tem origem numa excitação do corpo, e sua finalidade é a remoção dessa excitação.
Havia, anteriormente, uma distinção entre as pulsões egóicas e pulsões sexuais. Entretanto, com o estudo do narcisismo, essa distinção se tornou desnecessária, uma vez que o ego pode tomar a si mesmo como objeto. Freud inclusive afirma que o ego é sempre o principal reservatório de libido. A libido do ego é constantemente transformada em libido objetal, e a libido objetal, em libido do ego. A hipótese de Freud, portanto, na segunda teoria das pulsões, é que haveria duas classes de pulsões: as pulsões de vida e as pulsões de morte.
Segundo Freud, é possível observar que há pessoas cujas vidas se repetem, muitas vezes prejudicando-as, como se estivessem perseguidas por um ‘destino implacável’. Freud atenta para o fato de que essas pessoas, sem se aperceberem, causam a si mesmas esse destino. Na análise também é observado a reprodução de experiências infantis recalcadas, que são melhor explicadas por uma ‘compulsão à repetição’. Esta triunfaria sobre o princípio de prazer, expressando a natureza conservadora da vida pulsional. A distinção entre as pulsões de vida e de morte, seria que a primeira visaria à combinação da substância viva, enquanto a pulsão de morte estaria vinculada a uma tendência para o retorno ao inorgânico. A compulsão à repetição seria uma consequência da ação da pulsão de morte.
Um dos obstáculos para a análise é uma necessidade de punição, que Freud classifica como um desejo masoquista, vinculado ao sentimento inconsciente de culpa. Este certamente pode ser vinculado a um desejo de autodestruição, que Freud remonta à pulsão de morte. Entretanto, quando as pulsões eróticas (pulsão de vida) se encontram fundidas com as pulsões agressivas (pulsão de morte), então essas manifestações de sadismo e masoquismo podem ser atenuadas, condição necessária à civilização.

Elaborado por Eduardo Zaidan,
da equipe de monitores de Psicanálise da PUC-SP.





[1] O termo utilizado por Freud é Angst. Segundo Luiz Hanns, no Dicionário comentado do alemão de Freud, o termo Angst é um dos mais polêmicos entre os tradutores de Freud. De acordo com Hanns, as traduções francesas e espanholas tendem a privilegiar a tradução de Angst para “angústia”, enquanto as inglesas para “ansiedade”. Utilizei no resumo “ansiedade”, uma vez que é o termo empregado pela edição da Imago, dada sua ascendência inglesa. Entretanto, recomendamos o termo “angústia” como melhor tradução para Angst, apesar de ter respeitado, na composição deste resumo, a tradução da edição utilizada.
[2] Na obra de Freud, os termos Instinkt e Trieb são utilizados para abarcar fenômenos distintos. Apesar da diferença entre estes dois termos, a edição da Imago condensou ambos no termo “instinto”, omitindo essa diferença. Segundo Paulo César de Souza, em As palavras de Freud, “passou-se a ver no termo ‘pulsão’ o conceito freudiano por excelência, aquele que define o humano-simbólico, objeto da psicanálise, por oposição ao instintivo-animal, objeto da biologia”. Apesar da edição da Imago ter traduzido tanto Instinkt como Trieb para instinto, utilizaremos pulsão como tradução alternativa para Trieb, uma vez que acreditamos que seja uma tradução mais adequada para o termo Trieb

sábado, 3 de novembro de 2012

Resumo: Verbetes do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis - “Complexo de Édipo”



O complexo de Édipo tem seu auge entre o terceiro e quinto ano de vida da criança, período concomitante à fase fálica. Sua sucumbência marca o início da fase de latência. Tem como função estrutural a formação da personalidade e o direcionamento do desejo humano. Na perspectiva clínica, ele representa o centro referencial das psicopatologias e na perspectiva da antropologia, o referido processo é apontado como universal. O complexo de Édipo seria a representação da criança na relação triângular estabelecida com os cuidadores.

A elaboração do complexo de Édipo sofreu mudanças ao longo da obra de Freud. Uma das alterações foi com relação à ideia de que o modelo utilizado para o menino equivaleria ao processo vivido pela menina, o que foi reelaborado. Além disso, considerações acerca da fase pré-edipiana também foram aspectos debatidos no âmbito da psicanálise.

Freud atribui três funções fundamentais ao desencadeamento do complexo de Édipo, quais sejam:
a) A escolha do objeto de amor, visto que as escolhas objetais efetuadas na puberdade são marcadas pelos investimentos de objeto, pela interdição do incesto e pelas identificações referentes ao período edípico.
b) Acesso à genitalidade, pois o complexo de Édipo, quando resolvido por meio do processo de identificação que dele deriva, permite a primazia do falo.
c) Estruturação da personalidade por meio da constituição das três instâncias do aparelho psíquico: id, ego e superego.

Freud ressalta a necessidade de que o complexo seja não apenas recalcado, mas destruído para que o indivíduo entre no período de latência. Nesse sentido, o processo não ocorre de maneira efetiva sem a sua sucumbência pois o ego permanecerua no id em estado inconsciente, o que mais tarde se manifestaria através de uma patologia. Essa dissolução se dá de maneira distinta entre os meninos, que sucumbem à ameaça de castração fornecida pelo pai e renunciam o objeto incestuoso e as meninas, que, por outro lado, são introduzidas ao Édipo a partir da castração e apenas renunciam ao pênis quando o compensam com outro objeto de desejo, um eventual filho.

O complexo de Édipo ainda é relacionado ao mito do Totem e Tabu, na medida em que esse seria a fonte de uma instância interditória primária necessária ao estabelecimento da cultura. Assim, fica evidente que, para Freud, o complexo de Édipo possui um caráter fundamental.


Preparado por Camila Gerassi e Pedro Márky da Equipe de Monitores de Psicanálise da PUC de São Paulo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Vida Sexual dos Seres Humanos – Conf. XX, Vol. XVI, 1916/17


           Freud começa o texto discutindo possíveis definições para o que seria sexual no ser humano. No entanto, logo chega à conclusão de que o que habitualmente se chama de sexual (prazer do corpo, principalmente através dos órgãos sexuais, e que, em última instância, busca a união com os órgãos genitais do sexo oposto) não é suficiente para explicar outros comportamentos claramente sexuais como o contato homossexual, a masturbação, o fetichismo, entre outras manifestações desviantes que Freud inicialmente chama de perversões.  
Freud dividiu este grupo (pervertidos) entre aqueles em que o objeto sexual foi modificado e aqueles em que a finalidade sexual foi modificada. No primeiro grupo, encontramos aqueles que renunciaram a união dos dois genitais e que usam como fonte de prazer outra parte do corpo ou objetos específicos, por exemplo, peças de roupas (fetichistas). O segundo grupo de pervertidos é formado por aquelas pessoas que utilizam essas outras partes do corpo (ou objetos específicos) apenas no ato inicial ou preparatório do ato sexual para sentir prazer. Freud está falando de pessoas que sentem prazer em olhar outras pessoas, palpá-las, ou espiá-las durante os atos íntimos (atos iniciais preparatórios da cópula), sem que isto implique em uma posterior união dos genitais. Neste grupo é onde se encontra os chamados sádicos, que sentem satisfação em causar sofrimento aos seus objetos.
Em meio à descrição das perversões Freud justifica o aprofundamento neste tema alegando que é preciso dar uma explicação sobre como essas perversões estão conectadas com aquilo que descrevemos como sexualidade normal. Para ele, uma melhor compreensão das perversões viabilizaria uma melhor compreensão da sexualidade normal, uma vez que ambas partem de pressupostos que, do ponto de vista da organização, guardam uma certa semelhança
Freud nos faz relembrar que os sintomas neuróticos são substitutos da satisfação sexual e que na neurose histérica os sintomas podem ocorrer em qualquer órgão. Nos sintomas histéricos os órgãos metaforicamente substituídos pelos genitais são justamente aqueles que não possuem significação sexual. Freud, então, nos faz pensar que se para algumas pessoas existe uma dificuldade em obter uma satisfação sexual normal que as leva a inclinações pervertidas e que nada igual havia ocorrido antes, então suponhamos que nessas pessoas já se encontrava rastros das perversões, ou seja, as perversões já estavam presentes nessas pessoas de forma latente.
Isto, juntamente com a observação de crianças e a análise de adultos neuróticos, levou Freud a concluir que a perversão possuía suas origens na infância, de modo que toda criança demonstra uma pré-disposição à perversão. Para Freud, a perversão adulta não é nada mais do que “uma sexualidade infantil cindida em seus impulsos separados".
Além disso, Freud ressalta no texto, que, do ponto de vista da organização, a homossexualidade não é uma perversão. De acordo com o autor, há impulsos homossexuais nos neuróticos. Sendo assim, a questão da homossexualidade aparece apenas como uma inversão do objeto e não como uma organização perversa.  A homossexualidade, desta forma, pode aparecer em qualquer organização. O autor traz, no texto, exemplos de histeria e de paranoia relativos a tal questão.
O que se impõe aqui é, então, que a sexualidade vai muito além da função reprodutiva. Os senhores cometem o erro de confundir sexualidade com reprodução, o que lhes barra o caminho para o entedimento da sexualidade, das perversões e das neuroses. (FREUD, 1917.) Para dar conta do citado anteriormente, as teorizações psicanalíticas acerca da temática partem da sexualidade infantil. E do conceito de “libido”, que é a energia sexual  - e  se manifesta através da pulsão.
O pai da psicanálise afirma que os primeiros impulsos sexuais de uma criança tem seu aparecimento ligado com as funções vitais. Como, por exemplo, a satisfação depois do bebê amamentar no seio materno e posteriormente ao repetir o ato sem ao menos estar com fome, só que usando do seu próprio corpo, ou seja, sugando o dedo ou a língua. O autor descreve este ato como sucção sensual e de zonas erógenas as partes do corpo (boca e lábio) como locais de excitação.  Com isto podemos concluir que os bebês executam ações com o propósito de obter prazer.
Ao analisarmos o fato de que uma criança possui  sexualidade, Freud demonstra que a sexualidade infantil é do tipo pervertido. Para o autor, há nesta fase da vida, a perversão polimorfa. Ele parte, para fazer tal afirmação, de que as crianças são desprovidas daquilo que transforma a sexualidade em função reprodutiva. Sendo assim, é importante ressaltar que o abandono da função reprodutiva e a permanência da obtenção de prazer é o aspecto comum de todas as perversões. Por outro lado, é característica comum a todas as perversões o fato de elas terem renunciado à meta de reprodução. (FREUD, 1916.) A questão que se impõe aqui, então, é que a sexualidade infantil não é barrada pela castração. Ou seja, a criança não remete os seus comportamentos sexuais a questão da lei, como na neurose.
É importante diferenciar, diante das informações apresentadas, que a característica primordial das perversões vai ser o fetichismo, ou seja, a substituição de um objeto (que aqui o autor classifica como função reprodutiva) por outro.  Isso não torna, os comportamentos sexuais que estão para além da reprodução, como perversos, como o próprio autor cita e já foi dito no parágrafo anterior. A sexualidade vai além da função reprodutiva e os comportamentos sexuais também. Trata-se, aqui, de pensar em um outro ângulo e de analisar caso a caso.
Retomando  as investigações sexuais da criança, Freud destaca que a observação acerca da atividade sexual de uma criança pode começar antes dos 3 anos. Primeiro, o autor traz o exemplo dos meninos. Quando um destes   descobre que as mulheres não tem pênis, ele supõe que um dia elas tiveram, mas que esse caiu ou foi cortado. Mais tarde, amedronta-se com tal possibilidade e qualquer ameaça feita sobre seu órgão genital gera um retraimento nele. O menino, então, entra  no complexo de castração,  que está diretamente relacionado a saída do complexo de Édipo e, consequentemente, na organização psíquica da criança, pois é o que posteriormente implicará em um posicionamento diante do desejo da mãe e nas questões posteriores relativas ao final do Édipo.
No caso das meninas, elas invejam os meninos por não possuírem um pênis e desenvolvem assim o desejo de ter um pênis. De acordo com o autor,  este fenômeno se desdobra em um desejo de ser homem, o que pode transcorrer em problemas relativos ao papel feminino na idade adulta, na neurose.
Freud traz a questão de que o interessante sexual das crianças está primordialmente ligado ao fato de querer saber de onde elas vêm. Diante disso, as mesmas, em diferentes idade, apresentam hipóteses diferentes acerca do fenômeno. O autor traz exemplo  para dar uma finalização ao texto que visou demonstrar que a sexualidade na psicanálise tem uma amplitude para além do senso comum, mas que no entanto, não perde a sua associação com a questão fenômica apresentada no termo. Tratou-se, assim, neste texto, de observar de um “para além”, que não perdeu o seu rigor conceitual.

Revisado por Antônio Alberto Almeida e Aline Marcelino da Equipe de Monitores de Psicanálise do Curso de Psicologia da PUC/SP.