Preparado por Renata Siqueira da Equipe de Monitores de Psicanálise da PUC de São Paulo.
terça-feira, 1 de junho de 2010
´´Uma nota sobre o Inconsciente em Psicanálise`` (Sigmund Freud, Volume XII, 1912)
Preparado por Renata Siqueira da Equipe de Monitores de Psicanálise da PUC de São Paulo.
´´A elaboração onírica`` (Sigmund Freud - Conferências Introdutórias à Psicanálise, Os sonhos)
Freud inicia seu texto reforçando que não se pode interpretar os sonhos apenas pelo que se compreende em um primeiro momento, ou seja, o sonho manifesto. Retomará que o sonho manifesto é o resultado de um processo denominado elaboração onírica, que consiste na passagem do conteúdo latente (inconsciente), para uma representação através de nossos sonhos (conteúdo manifesto e consciente). Sendo assim, todo sonho, mesmo que sendo facilmente reconhecido como um desejo do indivíduo, ainda assim conterá transformações, pois foi elaborado de forma que a consciência tenha recursos para representar este conteúdo. O sonho manifesto também será sempre de menor extensão do que o sonho latente. Isso acontece pela ação do mecanismo de condensação, que explicaremos em seguida, e pela impossibilidade de se esgotar o conteúdo latente.
Para Freud, os sonhos mais abstratos passam por um processo de maior elaboração onírica. Com intuito de diferenciar o processo de formação desses sonhos denomina essa de elaboração exacerbada como deformação onírica.
Em seguida explicara mais profundamente as três realizações constituintes da elaboração onírica, A Condensação, o Deslocamento e a Figurabilidade.
1.Condensação
O primeiro mecanismo se trata da condensação, “fusão”, de diversos conteúdos latentes em um único manifesto. Segundo Freud, está presente em muitos de nossos sonhos, mas não necessariamente em todos. Os conteúdos condensados representam apenas parte do sonho latente e para serem condensados precisam possuir um núcleo em comum. O resultado é uma imagem que contém características de vários objetos em apenas um, tendo assim caráter fantasioso. Por exemplo, um jovem sonha com um cachorro que fala inglês e trabalha no ramo do cinema. Está imagem, não faz sentido algum se entendida apenas em sua manifestação. Através de uma análise contextual, e associando livremente essas características o dono deste sonho pode associar, por exemplo, a imagem de seu cachorro condensada, com a de uma professora de inglês e ao mesmo tempo com a imagem de seu amigo que entende de cinema. Lembrando-se do momento que esta vivendo, essa pessoa se da conta de que tem um cachorro e um compromisso com o mesmo. Lembra-se também que está prestes a realizar um exame de proficiência de inglês, e ainda que seu amigo entendedor de cinema recentemente mudou-se para Miami. Temos no cachorro a imagem condensada de um compromisso, com o inglês e a relação dessa língua com seu amigo que reside em um país de língua inglesa e que o jovem também tem o compromisso de contatá-lo. A análise desta manifestação não se esgota nesse ponto, mas nos daremos por satisfeito apenas como exemplo de condensação.
Freud ressaltará ainda que a mente não inventa novos elementos, apenas os condensa. A criação se da, portanto através do mecanismo de condensação. Citará o exemplo do Centauro, como ser “criado”, mas que é apenas a combinação da imagem de um homem com a de um cavalo. Nos sonhos isso também é válido, “criamos” imagens condensadas.
A condensação se da também fora dos sonhos. Parapraxias(atos falhos) podem ser de certa forma muito semelhantes a uma condensação. Analisando a frase “o palhacio do sultão era muito grande” Aceitando o neologismo, “palhacio”, como ato falho, pode-se ainda sugerir que tal palavra nada mais é do que a condensação de palácio, com palhaço. Como na análise da condensação do sonho, para entender essa condensação, o criador deste ato falho deve analisar e associar o sentido e contexto que estas palavras lhe remetem.
Não podemos também considerar a condensação como tradução de conteúdo latente para manifesto. Em uma tradução, o conteúdo é fielmente traduzido. Na condensação ele é fielmente misturado e resumido.
Em suma, o mesmo elemento latente pode estar presente em mais de um conteúdo manifesto. Por sua vez, um conteúdo manifesto contém mais de um elemento latente. Não há também um padrão para a transcrição destes pensamentos. Os conteúdos manifestos não são, de forma alguma de fácil entendimento em uma condensação, não se pode levar a ação do sonho literalmente com o que se manifesta. Importante ressaltar que a condensação, não parece ser a Freud um mecanismo da censura, mas há um fator automático ou econômico isto é, para menor gasto energético, mesmo que a censura pareça lucrar com a deformação propiciada por esta realização.
Logo temos:
1- determinados conteúdos latentes são totalmente omitidos
2- apenas algum fragmento do conteúdo latente transparece de modo manifesto
3- alguns elementos latentes combinam entre si, por possuir algo em comum, e se fundem em uma só unidade no sonho manifesto.
2.Deslocamento
Primeiramente, não podemos dizer que o deslocamento é um mecanismo de defesa, mas sim um modo de funcionamento do inconsciente. A censura faz uso da realização do deslocamento e da condensação, mas não é responsável por sua formação. Embora Freud ainda compreenda neste texto que o deslocamento é, diferentemente da condensação, obra da censura, posteriormente essa idéia se modificará.
O deslocamento se manifesta de duas maneiras: Por alusão e por mudança do acento psíquico.
Alusão: Se no sonho manifesto temos A, se manifestará B. Sendo que B aparentemente não possui nenhuma ligação lógica com A. Em nossa linguagem deslocamos, mas com uma relação inteligível. Por exemplo, nos chistes, há uma relação. Ex: “a Patrícia vai falar das patricinhas”. A função do chiste só tem valor com a relação inteligível entre patrícia e patricinhas. Se a frase fosse “a Patrícia vai falar do Mauricio” não há relação inteligível aparentemente, portanto, o chiste perde sua função. Nos sonhos, os deslocamentos não respeitam essas regras.
Mudança do acento psíquico: Podemos sonhar com a imagem de um padre, mas o conteúdo latente era nosso pai. Por ação da Censura, deslocamento, foi possível deslocar a figura. Não só a figura, mas também a libido, energia catexisada(investida) à mesma. Em um sonho em que o protagonista mata o pai, é mais fácil aceitar que se matou o padre, e não o pai. Esta mudança de uma imagem importante para outra é a mudança de acento psíquico
Resumidamente, como a própria palavra sugere, se desloca, muda de lugar, a imagem, e a importância dada a esta imagem. A importância é deslocada, pois é deslocada a libido, de um objeto para outro.
Em nosso cotidiano o mecanismo de maior afinidade com o deslocamento é a transferência. O paciente transfere a importância antes dada para a figura de seu pai, para a figura de seu analista, por exemplo.
3.Figurabilidade.
A figurabilidade da elaboração onírica constitui na transformação de pensamentos em imagens visuais, É a linguagem na qual se traduz conteúdos latentes em manifestos, muito embora nem todos os conteúdos sejam traduzidos, alguns realmente aparecem em forma de conhecimento ou pensamentos. Segundo Freud, é uma passagem difícil, como da escrita alfabética, onde se define as entonações de palavras, quantidade e regras, para uma escrita pictórica, ou seja, de imagens. Será necessário muito trabalho para conseguir reproduzir a palavra através de imagens. Pensando na língua portuguesa, felizmente possuímos uma palavra que outras línguas não possuem, Saudades. Na língua inglesa para reproduzir tal palavra terá de se formular a frase “I miss you”. Ou seja, foi necessário construir uma frase, e ainda assim foi representado apenas um dos sentidos da palavra.
Considerações
É importante lembrar que os mecanismos de condensação e deslocamento não se restringem ao processo onírico. Por se tratarem de modos de funcionamento do inconsciente, atuam nos lapsos, chistes e sintomas (manifestações, como visto anteriormente, do inconsciente).
Além de compreender a elaboração onírica, este texto também permite uma apreensão do trabalho interpretativo, realizado por um analista. Consiste em chegar, a partir do sonho manifesto, ao conteúdo latente, através da associação-livre do paciente, atenção flutuante do analista e nosso trabalho interpretativo.
´´O conteúdo manifesto dos sonhos e os pensamentos oníricos latentes.`` (Sigmund Freud - Conferências Introdutórias à Psicanálise, Os sonhos)
O conteúdo dos sonhos é uma simbolização o que realmente o sonhador deseja. Os mecanismos oníricos são: condensação e deslocamento (vide resumo de “A Elaboração Onírica”). Isto é, como o conteúdo dos sonhos, manifestação do inconsciente, foi recalcado, este não pode vir à consciência pura e simplesmente. Para que o desejo se manifeste e o sonho ocorra é necessário que seja mascarado.
As transformações que o sonho sofre, para que seu conteúdo energético não seja demasiadamente prejudicial ao ego, são da ordem da condensação, que seria a fusão de duas ou mais cenas e do deslocamento, mudança de uma determinada cena para outro lócus (resumidamente). Num sentido amplo, uma vez decifrado, o sonho deixa de aparecer como uma narrativa em imagens para se tornar uma organização de pensamentos – sob um discurso – a qual exprime um ou vários desejos e a partir dos quais temos a condensação e o deslocamento. O sonhar ocorre devido ao conflito psíquico entre o id e o supereu, em que o id representa a realização do desejo e o supereu representa a lei, as regras, as críticas, os julgamentos.
Por se tratar de manifestações do inconsciente, os sonhos são atemporais, imorais e buscam a realização do desejo, mesmo que o desejo seja apenas a elaboração ou repetição de uma situação vivida. Através do método de associação-livre, é possível acessar estes conteúdos manifestos em busca dos conteúdos ocultos, latentes (´´inacessível para consciência do sonhador``). Isto é, o paciente ao dizer tudo o que lhe vier à cabeça possibilita que o analista faça a intersecção dos conteúdos apresentados e apresente a ele o não dito, simbolizado no sonho.
No trabalho de interpretação dos sonhos não devemos nos preocupar com o que este nos quer dizer, muito menos refletir (pensar) sobre cada idéia do sonhador, os analistas devem manter-se em um estado de escuta plena (futuramente chamado de atenção flutuante) para que assim possam emergir os verdadeiros conteúdos inconscientes. Desta forma: associações do paciente + interpretações do analista = análise revelatória; sendo aqueles os meios e este o fim do processo de análise onírica.
É importante explicitar que o sonho lembrado não é o material onírico original e sim o conteúdo inconsciente deformado. Podemos concluir que o conteúdo onírico citado não importa se relatado com precisão ou não, o importante é como o sonhador associa o relato, já que, toda e qualquer alteração feita teve um sentido, obra da resistência (o não lembrar-se de ter sonhado também teve a atuação deste mecanismo de defesa). O conteúdo latente designaria, por oposição ao conteúdo manifesto (lacunar), a tradução integral e verídica da palavra do paciente, a expressão mais adequada do seu desejo. Em poucas palavras, o conteúdo latente, descoberto pelo analista, é a versão correta e integral, e o conteúdo manifesto é a versão mutilada. O conteúdo manifesto correlaciona-se com o trabalho do sonho e o conteúdo latente correlaciona-se com o trabalho da interpretação.
Freud nos mostra o papel da resistência através de exemplos de negação na auto-análise e da negação ou omissão do paciente a algumas associações. Este material omitido se trata de idéias de extrema importância para o acesso ao inconsciente, e por isso, tem que ser ´´escondido`` pelo sonhador.
O sonhador tem seus próprios julgamentos e críticas sobre seu sonho, considerando assim, que alguns fatores não são relevantes para a interpretação. Assim, o paciente omite determinado fato, o que interfere na associação livre. Isso mostra a resistência durante o relato do sonho. É importante ressaltar que a resistência é do ego e não do inconsciente, é o ego que “não permite” que o conteúdo inconsciente chegue à consciência.
A resistência nos mostra que o trabalho na busca pelo conteúdo inconsciente não será fácil, contudo, nos dá indícios de que tem algo a ser olhado com cautela, pois algo teve de ser transformado ou omitido. É apresentado ainda, que a resistência atua em diferentes graus, dependendo da proximidade deste conteúdo à consciência. Assim, uma resistência maior significa que o conteúdo inconsciente está mais distorcido, enquanto uma menor resistência implica em uma menor distorção.
São citados, por Freud, quatro tipos de relação entre os elementos oníricos manifestos e latentes, são eles:
1- o conteúdo manifesto como constitutivo dos pensamentos latentes (exemplos ´a` e ´b` pg.123)
2- substituição de um fragmento ou uma alusão de conteúdos latentes (exemplos ´c`, ´d` e ´f`)
3- conteúdos manifestos como representação dos conteúdos latentes
4- (não apresentado neste texto) a relação simbólica entre conteúdo manifesto e latente.
Pode-se dizer que a relação entre conteúdo manifesto e latente não é simples. Não necessariamente no relato do sonho (conteúdo manifesto) está presente o conteúdo central do pensamento inconsciente. Desse modo, um elemento manifesto pode substituir por vários elementos latentes ou um elemento latente pode substituir vários elementos manifestos. Isso ocorre por condensação e deslocamento.
Em síntese, é intrínseco à interpretação dos sonhos o caráter de só ser realizado em análise, através do método de associação-livre, para que assim, os conteúdos manifestos possam ser interpretados por um analista que ´´plana`` sobre estes (o dito) na busca pelo não dito (latente). Lembrando sempre que cada significado do sonho é único para cada indivíduo, pois cada um associará tal cena à determinada situação idiossincrática.
domingo, 30 de maio de 2010
sobre os sonhos
capítulo I
Nesse texto, Freud faz um levantamento daquilo que tanto na antiguidade, quanto em seu tempo, filósofos, pensadores e médicos descreviam sobre a que se relacionavam os sonhos.
Os primeiros consideram que na atividade onírica há uma elevação da atividade mental a um nível superior, os segundos afirmam que aquilo que não teve vazão durante o dia ganha força e escoa, já os últimos dizem que a única coisa que induz o sonho são estímulos sensoriais tanto externos quanto internos ao corpo do sujeito.
A partir disso, o autor mostra interesse especial com relação à significação que os sonhos podem apresentar psiquicamente, segundo os processos neurológicos que os formam ou à luz de uma possível interpretação de um significado único para cada indivíduo.
Ao fim do texto, os dois possíveis métodos mais utilizados para interpretar os sonhos podem ser exemplificados através da substituição de diversos elementos oníricos por um significante principal, ou da substituição do conteúdo do sonho como um todo por outro discurso, numa relação simbólica.
Isso é, ou em um único sonho se encontram condensados uma série de conflitos psíquicos na forma de uma representação principal e/ou todo um conflito desloca-se de posição, ocupando em outro lugar a mesma significação que lhe deu origem.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Roteiro de Questões - Unidade I (Freud I)
1. Esboce o contexto histórico cultural do surgimento da psicanálise. Para responder essa questão, leve em conta as resistências apresentadas tanto pelos médicos quanto pelos filósofos.
2. Conceitue Recalque e Resistência
3. Como Freud denomina a libido? Fale também da libido objetal e da libido narcísica.
4. O que Freud quis dizer com a frase: “A sociedade sustenta uma condição de hipocrisia social.”?
5. O que diferencia e o que aproxima: Charcot, Breuer e Freud?
6. Comente as contribuições de Breuer para a psicanálise. Qual o método utilizado por este. Cite o caso da Anna O.
7. As contribuições de Breuer de fato foram imprescindíveis ao desenvolvimento da psicanálise, mas, posteriormente, Freud escolhe trilhar outro caminho.Explique as razões que o levaram a esta decisão e quais as conseqüências desta cisão
8. Quais são os 4 quatros caminhos para o inconsciente? Explique
9. Dada a importância dos sonhos na teoria psicanalítica , comente um pouco mais sobre os sonhos levando em conta suas características.
10. Diferencie a sexualidade infantil da sexualidade adulta
11. Para Freud o que é a transferência?
12. A sublimação é uma forma de realização do desejo? Explique
domingo, 11 de abril de 2010
Roteiro de Leitura: Um estudo autobiográfico (Sigmund Freud, volume XX, 1925)
Uma das maiores dificuldades de ler Freud é saber em qual momento de sua teoria o texto se situa. Isto porque as constantes mudanças teóricas processadas por ele nos exigem um constante olhar histórico, que o neófito leitor de psicanálise pode não estar a par. Para tanto, muitos transmissores da teoria de Freud constantemente preferem ensiná-lo cronologicamente. O propósito do seguinte texto é mostrar as origens de Freud, o background médico por trás do psicanalista. Com ele, ensejamos explicar um pouco de seu embasamento que o levou a interessar-se pela histeria, e também curiosidades de sua vida. Neste momento, que encerra a unidade introdutória do curso de Freud I, optamos igualmente por apresentar os dados do texto segundo a cronologia da vida de Sigmund Freud:
06/05/1856 – Freud nasce em Freiberg, na Morávia, (Tchecoslováquia).
1860 - Aos quatro anos, mudou-se para Viena onde recebeu toda sua educação. Confessa que seu interesse pela historia da Bíblia teve um efeito duradouro sobre orientações de seu interesse.
Atraído pelas teorias de Darwin e pelo ensaio de Goethe sobre a Natureza, Freud decide tornar-se estudante de Medicina.
1873 – Entra na universidade e afirma que se sentiu inferior e estranho por ser judeu, embora nunca compreendeu o porquê ele tinha de se sentir envergonhado de sua ascendência.
1876 a 1882 – Trabalhou no instituto de fisiologia com Ernest Brucke. Em 1881 tornou-se doutor em Medicina e em 1882 decide abandonar o laboratório de fisiologia para ingressar no Hospital Geral como assistente clínico, e pouco depois, foi promovido a médico estagiário.
Entrou para o Instituto de Anatomia Cerebral e passa a estudar as doenças nervosas. Nessa época, Freud publica grande número de observações clínicas sobre doenças orgânicas do sistema nervoso.
1885 – Freud foi nomeado conferencista de neuropatologia e nesse mesmo ano foi para Paris e tronou-se aluno na Salpetriere. Freud passa a traduzir para o alemão as conferências de Charcot, demonstrando grande interesse sobre suas investigações sobre a histeria. Realizou juntamente com Charcot um estudo comparativo das paralisias histéricas e orgânicas.
Antes de retornar a Viena passou um tempo em Berlim adquirindo e aprofundando conhecimentos sobre os distúrbios gerais da infância. Nessa época, publicou várias monografias sobre paralisias cerebrais unilaterais e bilaterais em crianças.
1886 – Casou-se e decidiu fixar-se em Viena. Estabeleceu-se como especialista em doenças nervosas. Ao apresentar um relatório na Sociedade de Medicina, Freud teve uma má recepção dos médicos e da autoridade. Ao apresentar um caso de hemianestesia histérica clássica à Sociedade foi bem recebido e aplaudido, no entanto reconhece que os outros médicos haviam perdido o interesse por ele. Freud gerou bastante polêmica ao afirmar a existência de histeria em homens.
Por conta desses fatos Freud se vê forçado a ingressar na Oposição, logo em seguida é excluído do laboratório de anatomia cerebral e durante muitos meses não teve onde pronunciar suas conferencias, o que o fez se afastar da vida acadêmica. Freud passa a trabalhar e se focar no hipnotismo. No entanto, percebe alguns obstáculos e limitações desse método.
1886 a 1891 – Realizou poucos trabalhos e publicações. Em 1889, Freud foi para Nancy, onde ficou como observador dos experimentos de Berheim com pacientes de um hospital. Já em 1891, apareceu o primeiro de seus estudos sobre as paralisias cerebrais de crianças. Nesse mesmo ano, Freud recebe um convite para colaborar em uma enciclopédia de Medicina, levando-o a investigar a teoria da afasia.
Roteiro de Leitura: As resistências à Psicanálise ( Sigmund Freud, volume XIX, 1924)
Aqui, regressamos a um dos assuntos mais fundamentais na problematização da leitura de Freud: a intenção com que o autor escrevia alguns de seus textos, de escapar à tangente de críticas e reducionismos de seu período que, por sua vez, determinava um estilo bastante característico de explicitar idéias.
Como reagimos ao novo? Qual é o dispêndio psíquico que nos é exigido perante o desprazer do que nos é diferente? Por que repudiamos a mudança? Estes são alguns dos questionamentos que nos despertam a leitura dos primeiros parágrafos do texto. Também podemos perceber uma grande preocupação do autor em nos deixar curiosos quanto ao que ele estaria se referindo: será com relação à recepção da ciência à emergência do saber psicanalítico?
Como podemos imaginar, é própria do estatuto das ciências naturais a constante renovação de axiomas e teses que fundamentam, bem como sua evidente falibilidade e constante incerteza. Nada disso, portanto, impele repúdio por parte do que é novo. Esta afirmação é incongruente? Como haveria da ciência repudiar aquilo que lhe é atual?
É que ela não deseja ser enganada, pois nem tudo que é novo é bom. A ciência é desconfiada, cética. Segundo Freud, este ceticismo é perfeitamente justificável, mas pode apresentar dois caminhos inesperados: pode posicionar-se contra aquilo que lhe é novo, enquanto poupa aquilo que lhe é familiar e já aceito; assim como também pode negar aquilo que lhe é novo sem ter procurado conhecê-lo mais a fundo. Ao tomar estes caminhos, a ciência posiciona-se ao lado da reação primitiva de repúdio ao que é novo. A psicanálise promoveu um corte epistemológico brutal em seu período, que feriu vários campos do conhecimento. O que o presente texto fará será esmiuçar as razões pelas quais houve oposição à psicanálise, e não meramente sua forma. Comecemos a enumerar os motivos que levou a comunidade acadêmica ir contra a psicanálise:
1 – Origem da afecção neurótica:
“Eles haviam sido ensinados a respeitar apenas fatores anatômicos, físicos e químicos. Não estavam preparados para levar em consideração fatores psíquicos, e portanto, enfretaram-nos com indiferença ou antipatia” (Freud, 1924b, pp. 241). Esta frase resume excelentemente a razão que levou os médicos a desacreditar causas psicogênicas para o adoecimento da neurose, fato esse que demonstra uma base epistemológica mecanicista regendo a práxis médica. As neuroses eram somente consideradas distúrbios corporais, estados tóxicos, com os experimentos de Charcot e observações de Breuer pôde-se verificar que também são processos mentais (portanto, hipnotizando o paciente era possível produzir os sintomas somáticos da histeria, sendo assim, a psicanálise começou a considerar o problema como pertencente à natureza dos processos psíquicos).
2 – Divergência quanto ao objeto de estudo da psicologia:
Este tópico refere-se a um conflito entre a psicologia e a filosofia, especificamente.
“A idéia de filósofos sobre aquilo que é mental não era a da psicanálise. A maioria esmagadora deles vê como mental apenas os fenômenos da consciência. Para eles, o mundo da consciência coincide com a esfera do que é mental. Tudo o mais que possa se realizar na mente (...), é por eles relegado aos determinantes orgânicos dos processos mentais ou a processos paralelos aos mentais.” (Freud, 1924b, pp. 242)
Ora, se o mental é o consciente para os filósofos, para a psicanálise, o mental refere-se justamente ao contrário! O mental pertence à esfera inconsciente. Introduzir o inconsciente como célula estruturadora da psique era, certamente, uma afirmação de peso, que implicaria numa revisão tanto do caráter epistemológico do sujeito (referente à possibilidade de produção de conhecimento do sujeito) quanto do caráter ontológico dele (concernente à maneira dele de existir no mundo).
A justificativa de Freud para estes dois modos de conhecer (o psicanalítico e o filosófico) deve-se ao fato de que o filósofo jamais dispôs dos dados que o psicanalista pôde se servir para construir suas bases, isto é, não haveria meios, para a época, de acreditar em atos mentais inconscientes sem um mínimo conhecimento dos efeitos da hipnose ou da interpretação dos sonhos.
Assim, o que notamos? Notamos uma psicanálise que é fronteiriça entre dois terrenos cruéis: o da medicina, representante da ciência, que vê a psicanálise como pura especulação; e o da filosofia, que se nega a crer na clareza dos apontamentos psicanalíticos, acusando-os de partirem de premissas impossíveis.
E quanto ao escárnio evidente que toda grande teoria recebe? Lembremo-nos que Charles Darwin, ao dizer que a humanidade tinha como antepassados os mesmos seres que deram origem aos macacos, também sofreu um bocado. Pois bem, quando Freud pôs em voga a eminência da sexualidade na vida mental humana, muito lhe foi dito de denegridor e incorreto. Com freqüência, insistiam em culpar Freud por uma série de afirmações que ele mesmo não havia dito. Sua definição de sexualidade, por exemplo, não é uma mera resultante do prazer genital, mas bastante próxima do conceito de Eros, introduzido por Platão, em sua obra O banquete. Em momento algum de sua obra, inclusive, Freud defende a sexualidade humana enquanto pansexual, mas dualista. E, sobretudo, o caráter pulsional que as produções culturais, científicas e religiosas da humanidade (todos esses produtos sublimatórios) adquiriram em Freud foi mal interpretado. Como Freud procurou responder a essas questões? Para responder tal questão, inauguraremos um novo tópico:
3 – Más interpretações acerca do primado da sexualidade na teoria psicanalítica:
Segundo Freud, a humanidade encontra-se sustentada por dois pilares valiosos: o do controle das forças naturais e o da repressão da sexualidade. Quanto a ultima: “A sociedade está ciente disso – e não permitirá que o assunto seja mencionado” (Freud, 1924b, pp. 244) e “a sociedade sustenta um grau elevado de hipocrisia cultural” (Freud, 1924b, pp. 245). A repressão que falamos refere-se ao fato de que para vivermos socialmente, devemos sempre realizar concessões que fundamentalmente refere-se à nossa sexualidade. E especialmente à sexualidade genital para com nossos familiares.
O que vemos se desvelando no dizer de Freud é uma crítica contundente à moralidade, moralidade essa que duramente criticou o primado da sexualidade para a psicanálise e que é justamente o fruto desta repressão tão exarcebada. O momento histórico de Freud (e talvez o nosso...), que prenunciava a modernidade em vários aspectos, estava sendo posta em jugo, e por isso encontrou resistências por parte das pessoas de sua época.
Outro fator de ojeriza social à psicanálise foi a nova visão de infância que propunha: uma infância sexuada, perversa e polimorfa quanto aos seus objetos de prazer. Que escândalo, crianças se masturbando! E quanto ao complexo de Édipo? Desejos sexuais pelo progenitor do sexo oposto e desejos de assassinato e agressão ao progenitor de mesmo sexo? Cremos que essas afirmações, proferidas em uma sociedade de um século atrás, sejam auto-explicativas quanto à celeuma que causaram. E agora, pensemos: uma teoria que procurou trabalhar justamente com aquilo que havia sido jogado para debaixo do tapete; aquilo que, segundo Laplanche, esconde-se das crianças... A principal resistência a ela haveria de ser, sobretudo, emocional!
Freud encerra seu texto lembrando-nos do potencial disruptor de outros teóricos anteriores a ele: Darwin, que havia retirado o ser humano do centro da biologia, e Copérnico, que havia arruinado o sistema geocêntrico, retirando o planeta Terra do centro do universo. E Freud, que ferida narcísica havia realizado? A de retirar a o ser humano do centro de si mesmo, a propor o inconsciente.
Como haveria da psicanálise sobreviver a tantas críticas? Preocupemo-nos com esta questão num outro momento.