terça-feira, 1 de junho de 2010

´´O conteúdo manifesto dos sonhos e os pensamentos oníricos latentes.`` (Sigmund Freud - Conferências Introdutórias à Psicanálise, Os sonhos)

O conteúdo dos sonhos é uma simbolização o que realmente o sonhador deseja. Os mecanismos oníricos são: condensação e deslocamento (vide resumo de “A Elaboração Onírica”). Isto é, como o conteúdo dos sonhos, manifestação do inconsciente, foi recalcado, este não pode vir à consciência pura e simplesmente. Para que o desejo se manifeste e o sonho ocorra é necessário que seja mascarado.

As transformações que o sonho sofre, para que seu conteúdo energético não seja demasiadamente prejudicial ao ego, são da ordem da condensação, que seria a fusão de duas ou mais cenas e do deslocamento, mudança de uma determinada cena para outro lócus (resumidamente). Num sentido amplo, uma vez decifrado, o sonho deixa de aparecer como uma narrativa em imagens para se tornar uma organização de pensamentos – sob um discurso – a qual exprime um ou vários desejos e a partir dos quais temos a condensação e o deslocamento. O sonhar ocorre devido ao conflito psíquico entre o id e o supereu, em que o id representa a realização do desejo e o supereu representa a lei, as regras, as críticas, os julgamentos.

Por se tratar de manifestações do inconsciente, os sonhos são atemporais, imorais e buscam a realização do desejo, mesmo que o desejo seja apenas a elaboração ou repetição de uma situação vivida. Através do método de associação-livre, é possível acessar estes conteúdos manifestos em busca dos conteúdos ocultos, latentes (´´inacessível para consciência do sonhador``). Isto é, o paciente ao dizer tudo o que lhe vier à cabeça possibilita que o analista faça a intersecção dos conteúdos apresentados e apresente a ele o não dito, simbolizado no sonho.

No trabalho de interpretação dos sonhos não devemos nos preocupar com o que este nos quer dizer, muito menos refletir (pensar) sobre cada idéia do sonhador, os analistas devem manter-se em um estado de escuta plena (futuramente chamado de atenção flutuante) para que assim possam emergir os verdadeiros conteúdos inconscientes. Desta forma: associações do paciente + interpretações do analista = análise revelatória; sendo aqueles os meios e este o fim do processo de análise onírica.

É importante explicitar que o sonho lembrado não é o material onírico original e sim o conteúdo inconsciente deformado. Podemos concluir que o conteúdo onírico citado não importa se relatado com precisão ou não, o importante é como o sonhador associa o relato, já que, toda e qualquer alteração feita teve um sentido, obra da resistência (o não lembrar-se de ter sonhado também teve a atuação deste mecanismo de defesa). O conteúdo latente designaria, por oposição ao conteúdo manifesto (lacunar), a tradução integral e verídica da palavra do paciente, a expressão mais adequada do seu desejo. Em poucas palavras, o conteúdo latente, descoberto pelo analista, é a versão correta e integral, e o conteúdo manifesto é a versão mutilada. O conteúdo manifesto correlaciona-se com o trabalho do sonho e o conteúdo latente correlaciona-se com o trabalho da interpretação.

Freud nos mostra o papel da resistência através de exemplos de negação na auto-análise e da negação ou omissão do paciente a algumas associações. Este material omitido se trata de idéias de extrema importância para o acesso ao inconsciente, e por isso, tem que ser ´´escondido`` pelo sonhador.

O sonhador tem seus próprios julgamentos e críticas sobre seu sonho, considerando assim, que alguns fatores não são relevantes para a interpretação. Assim, o paciente omite determinado fato, o que interfere na associação livre. Isso mostra a resistência durante o relato do sonho. É importante ressaltar que a resistência é do ego e não do inconsciente, é o ego que “não permite” que o conteúdo inconsciente chegue à consciência.

A resistência nos mostra que o trabalho na busca pelo conteúdo inconsciente não será fácil, contudo, nos dá indícios de que tem algo a ser olhado com cautela, pois algo teve de ser transformado ou omitido. É apresentado ainda, que a resistência atua em diferentes graus, dependendo da proximidade deste conteúdo à consciência. Assim, uma resistência maior significa que o conteúdo inconsciente está mais distorcido, enquanto uma menor resistência implica em uma menor distorção.

São citados, por Freud, quatro tipos de relação entre os elementos oníricos manifestos e latentes, são eles:

1- o conteúdo manifesto como constitutivo dos pensamentos latentes (exemplos ´a` e ´b` pg.123)

2- substituição de um fragmento ou uma alusão de conteúdos latentes (exemplos ´c`, ´d` e ´f`)

3- conteúdos manifestos como representação dos conteúdos latentes

4- (não apresentado neste texto) a relação simbólica entre conteúdo manifesto e latente.

Pode-se dizer que a relação entre conteúdo manifesto e latente não é simples. Não necessariamente no relato do sonho (conteúdo manifesto) está presente o conteúdo central do pensamento inconsciente. Desse modo, um elemento manifesto pode substituir por vários elementos latentes ou um elemento latente pode substituir vários elementos manifestos. Isso ocorre por condensação e deslocamento.

Em síntese, é intrínseco à interpretação dos sonhos o caráter de só ser realizado em análise, através do método de associação-livre, para que assim, os conteúdos manifestos possam ser interpretados por um analista que ´´plana`` sobre estes (o dito) na busca pelo não dito (latente). Lembrando sempre que cada significado do sonho é único para cada indivíduo, pois cada um associará tal cena à determinada situação idiossincrática.

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